Letras Críticas
Mai. 2026
Desejo, revolução e contrarrevolução
Por Alvaro Luiz.
O desejo é imediatamente social. É assim que Gilles Deleuze e Félix Guattari formulam uma das teses mais provocativas de sua filosofia. Mas o que, afinal, isso significa? Em que medida o desejo, frequentemente compreendido como algo íntimo, subjetivo ou mesmo privado, pode ser pensado como constitutivo do campo social?
Dizer que o desejo é imediatamente social implica afirmar que não há mediação entre o desejo e o social. Não há um processo de "socialização" ou censura do desejo. Ele é imanente às formas sociais. Em outras palavras: ele constitui todo o campo social. Ele produz realidade. Eis o seu caráter construtivista.
Mas como isso acontece? Como pensar o desejo como força produtiva e não como falta? Talvez a pergunta deva ser ainda mais incisiva: se tudo o que nos cerca é produto do desejo, de quem é esse desejo?
É aqui que a questão se torna mais complexa. Em um primeiro momento, é preciso reconhecer que há um desejo legítimo das coletividades por transformação — desejo por novas formas sociais, por outras relações entre os termos, por aquilo que poderíamos chamar de criação de novos valores. No entanto, esse desejo não permanece intacto. Ele é capturado, redirecionado, investido.
Por quem? Pela classe dominante.
O mecanismo é sutil, mas decisivo. A classe dominante faz coincidir investimentos de desejo — que, em sua origem, possuem um caráter potencialmente revolucionário — com seus próprios interesses pré-conscientes. O que estava orientado para a transformação passa a operar na reprodução. Um exemplo recorrente pode ser encontrado na questão da diversidade: um desejo legítimo de expressão coletiva, de afirmação de diferenças, é progressivamente convertido em mercadoria, integrado ao circuito do consumo. Aquilo que emergia como ruptura torna-se produto.
Mas como se dá essa conversão?
A coletividade deseja transformação. Deseja uma reconversão subjetiva, novas relações com o corpo, com o trabalho, com o meio ambiente, com a sexualidade. Esses fluxos de desejo, de fato, passam. E aqui encontramos uma característica singular do capitalismo: diferentemente de formações sociais anteriores, ele não bloqueia imediatamente esses fluxos. Como mostram Deleuze e Guattari, o capitalismo não opera por codificação, mas por uma axiomática. Ele deixa passar.
Mas deixar passar não significa liberar. Significa, antes, preparar o terreno para uma operação mais complexa: a captura.
Os fluxos são então inseridos na axiomática capitalista e, em seguida, reconduzidos aos antigos agenciamentos. É esse o movimento que Deleuze e Guattari denominam reterritorialização: permitir a passagem dos fluxos para, logo depois, reinscrevê-los em estruturas já dadas. O novo é acolhido apenas para ser neutralizado.
Aqui, um ponto teórico decisivo merece maior atenção: a ideia, desenvolvida por Gilbert Simondon e retomada por Deleuze, de que as relações são anteriores aos termos. Mas o que isso quer dizer? Em termos simples, significa que não são os indivíduos ou as entidades já formadas que entram em relação; ao contrário, são as próprias relações — os modos de conexão, de interação, de composição — que produzem os termos. Os sujeitos, os objetos, as instituições não preexistem às relações: eles emergem delas.
Se assim é, então desejar novas relações não equivale a reorganizar elementos já dados, mas a transformar o próprio campo de constituição do real. O desejo, nesse sentido, é ontologicamente revolucionário: ele não quer apenas mudar conteúdos, mas modificar as condições mesmas de produção dos termos.
E, no entanto, é precisamente esse movimento que é interrompido no processo de captura. O campo de possíveis que se abre é rapidamente fechado. As novas relações desejadas são reabsorvidas pelos antigos agenciamentos. O que se apresentava como criação torna-se repetição. Nada de essencialmente novo emerge, apenas a reprodução ampliada do capital.
Mas se o desejo é tão potente, por que ele se deixa capturar?
Jean Baudrillard formula essa questão de maneira incisiva: se o desejo é tão revolucionário assim, como se deixou capturar? A resposta é simples. O desejo quer desejar. Ele não é simplesmente enganado; ele investe. O que as elites constroem, ao longo de séculos, é um dispositivo que faz com que as próprias classes oprimidas passem a desejar os mecanismos que as oprimem. Tijolo por tijolo, produz-se o desejo da repressão.
Assim, ao lado de um desejo originariamente revolucionário, instala-se um segundo movimento: aquele em que o desejo se orienta para os antigos agenciamentos — o Estado, a família, o Exército, a polícia, o mercado. O que era abertura torna-se busca por segurança. O que era criação torna-se conservação.
E, no entanto, esse não é o fim da história.
Há momentos em que esse processo se torna visível. Momentos em que a sociedade vê. Deleuze e Guattari chamam isso de “fenômeno de vidência”. Mas o que se vê, exatamente?
Vê-se o intolerável.
E o que é o intolerável? Não se trata apenas do sofrimento ou da injustiça, mas da impossibilidade. A impossibilidade de continuar vivendo sob determinados modos de relação. Franz Kafka já havia intuído isso: a relação do intolerável com o impossível. Relações com o trabalho, com o corpo, com o meio ambiente, com a sexualidade — tudo isso pode atingir um limiar em que a existência sob tais relações se torna insustentável.
É nesse ponto que o impossível se conecta ao possível. Como formula Deleuze: “um pouco de possível, senão eu sufoco”. O desejo, enquanto experiência do impossível, é a exigência de outros possíveis. Ele revela a falência das relações existentes e, ao mesmo tempo, anuncia a necessidade de novas composições. Novas possibilidades de vida.
Eis, então, o momento propriamente revolucionário: quando os antigos agenciamentos se tornam intoleráveis e novas relações constroem novos termos. O desejo deixa de ser capturado e passa a operar como força de transformação real. Ele produz novas realidades.
A questão que permanece é esta: em que medida somos capazes de sustentar esse momento?
Diante da integração crescente do proletariado às estruturas do capitalismo avançado, Herbert Marcuse desloca a possibilidade de transformação histórica para aqueles situados às margens da ordem social — sujeitos excluídos dos circuitos de reconhecimento e participação —, concebendo justamente nessa exterioridade uma potência crítica capaz de confrontar o sistema, ainda que tal força não se apresente sob a forma de uma consciência revolucionária plenamente constituída.
A noção de “Grande Recusa”, desenvolvida por Marcuse, designa uma atitude radical de negação das formas de dominação produzidas pela sociedade capitalista avançada. Para Marcuse, o sistema integra os indivíduos por meio do consumo, da racionalidade técnica e da produção de falsas necessidades, neutralizando a crítica e a possibilidade de emancipação.
A Grande Recusa surge, então, como um gesto ético, político e estético de rejeição dessa ordem social, recusando seus valores, modos de vida e mecanismos de controle. Mais do que uma simples oposição política, ela representa a afirmação de novas formas de existência, desejo e sensibilidade capazes de romper com a lógica repressiva da sociedade unidimensional.