Letras Críticas
Mai. 2026
Desejo, revolução e contrarrevolução
Por Alvaro Luiz.
O desejo é imediatamente social. É assim que Gilles Deleuze e Félix Guattari formulam uma das teses mais provocativas de sua filosofia. Mas o que, afinal, isso significa? Em que medida o desejo, frequentemente compreendido como algo íntimo, subjetivo ou mesmo privado, pode ser pensado como constitutivo do campo social?
Dizer que o desejo é imediatamente social implica afirmar que não há mediação ou sublimação entre o desejo e o social. A libido não precisa passar por metamorfoses. Wilhelm Reich percebeu bem que a sociedade alemã não foi enganada, mas sim desejou o nazismo. Não há um processo de "socialização" ou censura do desejo. Ele é imanente às formas sociais. Em outras palavras: ele constitui todo o campo social. Ele produz realidade. Eis o seu caráter construtivista.
Mas como isso acontece? Como pensar o desejo como força produtiva e não como falta? Talvez a pergunta deva ser ainda mais incisiva: se tudo o que nos cerca é produto do desejo, de quem é esse desejo?
É aqui que a questão se torna mais complexa. Em um primeiro momento, é preciso reconhecer que há um desejo legítimo das coletividades por transformação, desejo por novas formas sociais, por outras relações entre os termos, por aquilo que poderíamos chamar de criação de novos valores. No entanto, esse desejo não permanece intacto, ele é capturado, redirecionado, investido.
Por quem? Pela classe dominante.
O mecanismo é sutil. A classe dominante faz coincidir investimentos de desejo, que, em sua origem, possuem um caráter potencialmente revolucionário, com seus próprios interesses pré-conscientes. O que estava orientado para a transformação passa a operar na reprodução. Um exemplo recorrente pode ser encontrado na questão da diversidade: um desejo legítimo de expressão coletiva, de afirmação de diferenças, é progressivamente convertido em mercadoria, integrado ao circuito do consumo. Aquilo que emergia como ruptura torna-se produto.
Mas como se dá essa conversão?
A coletividade deseja transformação. Deseja uma reconversão subjetiva, novas relações com o corpo, com o trabalho, com o meio ambiente, com a sexualidade. Esses fluxos de desejo, de fato, passam. E aqui encontramos uma característica singular do capitalismo: diferentemente de formações sociais anteriores, ele não bloqueia imediatamente esses fluxos. Como mostram Deleuze e Guattari, o capitalismo não opera por codificação, mas por uma axiomática. Ele deixa passar.
Mas deixar passar não significa liberar, mas, antes, preparar o terreno para uma operação mais complexa: a captura.
Os fluxos são então inseridos na axiomática capitalista e, em seguida, reconduzidos aos antigos agenciamentos. É esse o movimento que Deleuze e Guattari denominam reterritorialização: permitir a passagem dos fluxos para, logo depois, reinscrevê-los em estruturas já dadas. O novo é acolhido apenas para ser neutralizado.
Aqui, um ponto teórico importante merece maior atenção: a ideia, desenvolvida por Gilbert Simondon e retomada por Deleuze, de que as relações são anteriores aos termos. Mas o que isso quer dizer? Em termos simples, significa que não são os indivíduos ou as entidades já formadas que entram em relação; ao contrário, são as próprias relações, os modos de conexão, de interação, de composição, que produzem os termos. Os sujeitos, os objetos, as instituições não preexistem às relações: eles emergem delas.
Se assim é, então desejar novas relações equivale a transformar o próprio campo de constituição do real. O desejo, nesse sentido, é ontologicamente revolucionário: ele quer modificar as condições mesmas de produção dos termos.
E, no entanto, é precisamente esse movimento que é interrompido no processo de captura. O campo de possíveis que se abre é rapidamente fechado. As novas relações desejadas são reabsorvidas pelos antigos agenciamentos. O que se apresentava como criação torna-se repetição. Nada de essencialmente novo emerge, apenas a reprodução ampliada do capital.
Mas se o desejo é tão potente, por que ele se deixa capturar?
Jean Baudrillard formula essa questão de maneira incisiva: se o desejo é tão revolucionário assim, como se deixou capturar? A resposta é simples. O desejo quer desejar. Ele não é simplesmente enganado; ele investe. O que as elites constroem, ao longo de séculos, é um dispositivo que faz com que as próprias classes oprimidas passem a desejar os mecanismos que as oprimem. Tijolo por tijolo, produz-se o desejo da repressão.
Assim, ao lado de um desejo originariamente revolucionário, instala-se um segundo movimento: aquele em que o desejo se orienta para os antigos agenciamentos — o Estado, a família, o Exército, a polícia, o mercado. O que era abertura torna-se busca por segurança. O que era criação torna-se conservação.
E, no entanto, esse não é o fim da história.
Há momentos em que esse processo se torna visível. Momentos em que a sociedade vê. Deleuze e Guattari chamam isso de “fenômeno de vidência”. Mas o que se vê, exatamente?
Vê-se o intolerável.
E o que é o intolerável? Não se trata apenas do sofrimento ou da injustiça, mas da impossibilidade. A impossibilidade de continuar vivendo sob determinados modos de relação. Franz Kafka já havia intuído isso: a relação do intolerável com o impossível. Relações com o trabalho, com o corpo, com o meio ambiente, com a sexualidade — tudo isso pode atingir um limiar em que a existência sob tais relações se torna insustentável.
É nesse ponto que o impossível se conecta ao possível. Como formula Deleuze: “um pouco de possível, senão eu sufoco”. O desejo, enquanto experiência do impossível, é a exigência de outros possíveis. Ele revela a falência das relações existentes e, ao mesmo tempo, anuncia a necessidade de novas composições. Novas possibilidades de vida.
Eis, então, o momento propriamente revolucionário: quando os antigos agenciamentos se tornam intoleráveis e novas relações constroem novos termos. O desejo deixa de ser capturado e passa a operar como força de transformação real. Ele produz novas realidades.
A questão que permanece é esta: em que medida somos capazes de sustentar esse momento?
Diante da integração crescente do proletariado às estruturas do capitalismo avançado, Herbert Marcuse desloca a possibilidade de transformação histórica para aqueles situados às margens da ordem social — sujeitos excluídos dos circuitos de reconhecimento e participação —, concebendo justamente nessa exterioridade uma potência crítica capaz de confrontar o sistema, ainda que tal força não se apresente sob a forma de uma consciência revolucionária plenamente constituída.
A noção de “Grande Recusa”, desenvolvida por Marcuse, designa uma atitude radical de negação das formas de dominação produzidas pela sociedade capitalista avançada. Para Marcuse, o sistema integra os indivíduos por meio do consumo, da racionalidade técnica e da produção de falsas necessidades, neutralizando a crítica e a possibilidade de emancipação.
A Grande Recusa surge, então, como um gesto ético, político e estético de rejeição dessa ordem social, recusando seus valores, modos de vida e mecanismos de controle. Ela representa a afirmação de novas formas de existência, desejo e sensibilidade capazes de romper com a lógica repressiva da sociedade unidimensional.