Deixe seu sentido do ritmo se insinuar, circular por entre os homens e as mulheres, os veículos e os pardais — tudo que acontece na rua — até que tudo esteja ligado a um todo harmonioso. Talvez seja essa a sua tarefa: encontrar a relação entre coisas que parecem incompatíveis e que, no entanto, tem uma afinidade misteriosa, absorver toda experiência que se oferece a você, sem temor e na sua plenitude, de tal modo que seu poema seja um todo, e não um fragmento (Virginia Woolf ).
SOBRE O CURSO:
Como produzir uma escrita criativa que não seja redundante e não sirva aos poderes estabelecidos?
A escrita hegemônica parte sempre da ideia de Uno. Um centro. Uma unidade. Um todo orgânico. Dessa lógica nasce a separação: livro e mundo, arte e natureza, autor e realidade. A obra passa a imitar o mundo. Mas escrever pode ser outra coisa. Não representar o mundo. Fazer o mundo variar. Produzir intensidades, devires e novas formas de sentir. Escrever não é contar histórias. É produzir acontecimentos de linguagem. Foi a partir dessas ideias que nasceu o curso ESCRITA CRIATIVA E MULTIPLICIDADE. Um espaço para experimentar novas formas de criação literária.
Escrita e realidade
Toda sociedade se sustenta em códigos que organizam a vida coletiva e estabilizam o terreno sobre o qual ela se reconhece como ordem. O que realmente a ameaça não é a desigualdade ou a escassez, administráveis por mecanismos já conhecidos, mas a emergência de processos que escapam a esses códigos e não podem ser nomeados ou enquadrados. Quando algo passa a circular sem forma definida, corroendo por baixo os territórios simbólicos e materiais, instala-se uma crise mais profunda: não apenas da ordem social, mas da própria capacidade de compreender o que acontece. É nesse ponto que se abre uma zona de indeterminação, em que a sociedade se confronta não com o vazio, mas com a instabilidade radical de seus próprios fundamentos. É essa a matéria-prima da dramaturgia molecular.
Contra as leituras que procuram decifrar a cena a partir de sistemas simbólicos estáveis ou de uma hermenêutica do imaginário, a noção de dramaturgia molecular aponta para outro regime de criação e de experiência. Não se trata de representar algo já dado, nem de reproduzir códigos, mas de operar no nível das forças mínimas, dos afetos e das intensidades que atravessam a escrita e a cena. Nessa perspectiva, a dramaturgia deixa de ser um dispositivo de interpretação do mundo para tornar-se um campo de passagem, no qual algo do real irrompe sem se deixar domesticar pela significação. O efeito dessa operação não é a produção de mensagens ou alegorias, mas a perturbação sensível de quem lê ou assiste, deslocando hábitos perceptivos, reorganizando afetos e abrindo novas possibilidades de ver, sentir e existir.
Em Madame Bovary, Flaubert transforma uma história de amor em blocos de sensações. Uma gota de água no guarda-chuva vale tanto quanto o drama inteiro. O Dinheiro (1983), de Robert Bresson, é um filme de pequenas coisas: a moto, as pistolas, os envelopes, o cofre, as chaves, a máquina fotográfica. Objetos atravessados por mãos, pernas, pés — corpos que os cercam e os acionam. Tudo se passa em espaços inertes: o balcão do hotel, a mesa da esplanada, os corredores da prisão, o balcão do bar.
O mundo molecular é anterior à representação. É feito de devires, hecceidades, horas que sonham, paisagens que veem. Um mundo horizontal, sem hierarquias. Debaixo do tempo cronológico, existe o aion: o tempo do acontecimento puro. É disso que trata o molecular: gestos mínimos, resistências quase invisíveis, forças, intensidades e velocidades que atravessam o cotidiano. Elas podem mudar tudo… ou ser capturadas.
A cada dia torna-se necessário desmontar a escrita criativa tradicional, vinculada ao realismo dominante e às lógicas de hierarquia e controle, e abrir linhas criativas para uma dramaturgia do múltiplo, baseada em intensidades, hecceidades, devires e planos de consistência.
ESCRITA CRIATIVA E MULTIPLICIDADE é um curso para quem deseja escrever de forma mais livre, intensa e inventiva, sem ficar preso aos modelos tradicionais de criação. Em vez de tratar a escrita como expressão de um “eu” interior, trabalhamos com a ideia de multiplicidade: escrever é abrir passagens, deixar que vozes, ritmos e forças entrem no texto. O curso combina teoria e prática para mostrar como a escrita nasce de encontros, com imagens, pedaços de imanência, afetos, velocidades, sensações, e como esses materiais podem ser transformados em potência literária. A partir de exercícios guiados, analisamos modos de criar personagens, fazer surgir pedaços de imanência, construir intensidades e produzir escritas que escapam do previsível. Também exploramos noções como variação, fluxo, derivação e diferença, permitindo que cada participante descubra sua própria linha de criação. O objetivo é simples: fazer a escrita acontecer, não como reprodução de modelos, mas como invenção contínua, abertura de mundos e multiplicação de possibilidades.
PARA QUEM É: Escritores (roteiristas, dramaturgos, romancistas etc.), leitores, estudantes, pesquisadores e demais interessados em escrita criativa, ficção e produção cultural.
O QUE VOCÊ VAI APRENDER:
Uma dramaturgia molecular.
Sobre obras e escritores "estranhos", que produziram uma escrita criativa que substituiu os clichês de gênero por devires (animais, vegetais, minerais etc.).
Eixos conceituais e linhas de composição da escrita molecular.
Sobre como a obra filosófica de Deleuze e Guattari pode contribuir para a escrita criativa.
DETALHES DO CURSO:
Próxima turma com inscrições abertas!
Encontros: Serão realizados 12 encontros online ao vivo, com um encontro semanal, às terças-feiras, das 19h30 às 22h30 (horário de Brasília), ao longo de três meses (abril, maio e junho), totalizando 36 horas de curso.
Início do curso: Dia 7 de abril de 2026, terça-feira, às 19h30.
Investimento: R$ 780,00 em até 4 vezes sem juros ou em até 12 vezes com acréscimo.
*Após confirmação de pagamento, será enviado a você, por e-mail, um convite para participação no curso online ao vivo.
MÓDULOS
Módulo 1: A MÁQUINA DE ORGANIZAR O MUNDO: DRAMATURGIA E PODER
Módulo 2: MULTIPLICIDADE: A VIDA QUE ESCAPA À REPRESENTAÇÃO
Módulo 3: O ATO DE CRIAÇÃO LIVRE DE UM "ROMANCISTA OUSADO": A DRAMATURGIA MOLECULAR
Módulo 4: TOCAR A EMOÇÃO PROFUNDA: TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS DA ESCRITA MOLECULAR
Módulo 5: PRÁTICAS DE ESCRITA E EXPERIMENTAÇÃO
METODOLOGIA:
Aulas expositivas dialogadas.
Análise de textos, apresentação e disponibilização de material didático.
O QUE VOCÊ RECEBE:
Material didático (PDF).
Inclusão (se quiser) em grupo para estudos.
Certificado de conclusão de curso.
Vagas limitadas, garanta já a sua!
COM QUEM VOCÊ IRÁ APRENDER:
Prof. Dr. Alvaro Luiz.
Lattes: https://lattes.cnpq.br/7030261108682554
Historiador, Esquizoanalista e Criador Audiovisual. É Doutor e Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná, Instituição na qual também obteve Graduação em História. Tem Especializações em Cinema pela Universidade Estadual do Paraná e em Filosofia da Educação pela Universidade Federal do Paraná. Seu campo de interesse em pesquisa perpassa o pensamento de autores como Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jacques Rancière, Friedrich Nietzsche, Henri Bergson, Baruch Espinosa, dentre outros, no cotejo com a arte, a sociedade, a saúde e a História. Possui experiência nas áreas de História da Arte, Filosofia, Cinema e Esquizoanálise. O presente curso é resultado de uma pesquisa sobre as contribuições de Gilles Deleuze e Félix Guattari à escrita criativa.
Confira vídeos da 'N'DIMENSÕES que discutem alguns temas do curso: