Letras Críticas

Abr. 2026

Master of Puppets: os mestres da corrupção e suas marionetes

Por Alvaro Luiz.


A classe empresarial endinheirada tem sido, historicamente, uma das grandes mestras da corrupção no Brasil, enquanto muitos políticos corruptos atuam como suas marionetes. Essa percepção tornou-se ainda mais evidente com o recente caso envolvendo o banco Master, apontado por investigações como potencialmente ligado à maior fraude financeira da história do país. Se nos perguntarmos quem foram os maiores corruptos da história brasileira, talvez descubramos que seus nomes não emergem prioritariamente da política institucional, mas daqueles que controlam, financiam e instrumentalizam a política. Um breve panorama dos principais escândalos nacionais ajuda a identificar quem são, afinal, os verdadeiros mestres da corrupção.

A delação dos irmãos Wesley e Joesley Batista descreveu um esquema de corrupção de proporções monumentais, envolvendo o pagamento de propinas a 1.829 políticos. Em troca da colaboração premiada, os empresários receberam benefícios amplos, incluindo perdão judicial para oito tipos de crimes, cujas penas somadas poderiam ultrapassar dois mil anos de prisão. Apesar das denúncias e da condenação por uso de informações privilegiadas e manipulação de mercado em 2017, Joesley e Wesley Batista permaneceram no comando do grupo J&F e, em 2025, figuravam entre os homens mais ricos do Brasil. O episódio explicita um traço recorrente do capitalismo periférico brasileiro: a capacidade de converter poder econômico em blindagem institucional.

Marcelo Odebrecht, por sua vez, tornou-se símbolo internacional da promiscuidade entre grandes conglomerados privados e o Estado. Foi condenado por orientar e autorizar o pagamento sistemático de propinas a dirigentes da Petrobras para beneficiar seu grupo em contratos bilionários, como os das refinarias Abreu e Lima (RNEST), Presidente Vargas (REPAR) e Comperj. Contudo, após firmar acordo de colaboração com o Ministério Público, teve sua pena reduzida. Condenado em 2016 a dezenove anos de prisão, já no ano seguinte progrediu para a prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. A rapidez com que certas punições se convertem em acomodações nas mansões luxuosas dos corruptos revela a seletividade estrutural da justiça brasileira.

Na Operação Zelotes, outro capítulo expressivo entre os maiores casos de corrupção do país, investigaram-se ao menos 70 empresas. Entre elas figuravam alguns dos maiores grupos empresariais do Brasil: Gerdau, BankBoston, Mundial-Eberle, Ford, Mitsubishi, Santander, Bradesco, Banco Safra e o Grupo RBS, afiliado da Rede Globo no Rio Grande do Sul. Tratava-se de esquemas voltados à compra de decisões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), mecanismo pelo qual dívidas bilionárias podiam ser anuladas ou reduzidas. Corrupção, aqui, não aparece como desvio excepcional, mas como método sofisticado de gestão de interesses privados.

Também o Escândalo do Banestado permanece como uma das maiores operações de evasão fiscal e lavagem de dinheiro da história nacional. Utilizando contas CC-5 do Banco do Estado do Paraná, cerca de US$ 30 bilhões foram enviados ilegalmente para paraísos fiscais. Envolvendo doleiros, empresas e agentes políticos, o esquema serviu para expatriar recursos oriundos de corrupção, sonegação e crimes financeiros diversos. O caso demonstrou como o sistema bancário pode funcionar como infraestrutura da criminalidade econômica em larga escala.

A trajetória de Eike Batista acrescenta outro elemento a esse repertório. Sua corrupção envolveu principalmente o pagamento de propinas a políticos e fraudes no mercado financeiro. Eike foi condenado por pagar propina ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, além de responder por irregularidades em suas próprias empresas do Grupo EBX. Preso preventivamente em 2017 e novamente em 2019, segue recorrendo de parte das sentenças em liberdade ou sob regimes diferenciados. Mais uma vez, a punição parece frequentemente proporcional não à gravidade do delito, mas à posição social do acusado.

Chega-se, então, ao caso de Daniel Vorcaro, acusado de comandar a maior fraude bancária de que se tem notícia no Brasil. Investigações da Polícia Federal e do Banco Central apontaram que o banco utilizava diversas estratégias para simular solidez financeira. Um dos eixos centrais da apuração é a tentativa de aquisição pelo BRB. Segundo a Polícia Federal, a fusão dos balanços buscaria “diluir” a fraude em uma instituição pública. A lógica parece reiterar um velho padrão nacional: privatizam-se os lucros e o roubo; socializam-se os prejuízos e o rombo. O caso alcançou ainda esferas superiores, com apurações sobre contratos do banco com escritórios ligados a familiares de ministros do STF.

A política sempre representou um obstáculo aos objetivos incessantemente renovados de domínio absoluto perseguidos pelos donos do Capital. Para contornar esse entrave, torna-se necessário mobilizar  verdadeiras marionetes, que atuem no interior da própria esfera política em favor de interesses privados. É indispensável deslocar para a política toda a responsabilidade pela corrupção, como se ela fosse um vício exclusivo do Estado e de seus representantes, e não uma engrenagem profundamente articulada aos poderes econômicos.

Essa estratégia de criminalização da política revelou-se de forma explícita com a Operação Lava Jato. Sob o discurso da moralização pública e do combate implacável à corrupção, não há como não suscitar a hipótese de que a operação acabou convertendo-se em instrumento de disputa de poder. 

Delações premiadas transformadas em mecanismo de pressão, concessão de benefícios seletivos a delatores. Como não suspeitar dessa operação? Em vez de fortalecer as instituições democráticas, instaurou-se um ambiente em que procedimentos excepcionais passaram a ser naturalizados em nome de um suposto bem maior.

Os principais rostos da operação, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, ingressaram diretamente na vida político-partidária. Moro, inclusive, assumiu o cargo de Ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro, principal adversário eleitoral de Lula. A passagem da toga para o palanque reforçou a percepção de que, por trás da retórica jurídica, movia-se um projeto essencialmente político. Quando a política é demonizada em bloco, abre-se caminho para que interesses econômicos e ambições particulares avancem sob o disfarce da neutralidade. Criminaliza-se a política para, paradoxalmente, fazer política por outros meios.

Historicamente, setores da extrema direita — frequentemente expressão política dos super-ricos — mobilizam o discurso anticorrupção para deslegitimar a própria política e abrir caminho para soluções autoritárias. Fazem-no, porém, poupando sistematicamente a classe dos grandes empresários, que tende a ser a principal beneficiária de governos de feição fascista ou ultraliberal. No senso comum, corrupção costuma aparecer associada exclusivamente à política. Trata-se de movimento inócuo: condena-se a marionete e absolve-se o ventríloquo.

Como observa Jessé Souza, o discurso dominante apresenta a política como lugar natural da corrupção, enquanto o empresariado seria o reino da eficiência e da virtude. O panorama aqui esboçado sugere o contrário: muitos dos maiores crimes econômicos da história brasileira foram protagonizados por grandes empresários e corporações. Ainda assim, persiste a retórica neoliberal segundo a qual empresários seriam melhores governantes. Tal argumento ignora que grande parte da própria classe política já é composta por empresários ou representantes diretos de seus interesses. Empresários na política não é nada "NOVO"!

Sob a máquina social capitalista, as corrupções no âmbito estatal tendem a ser, em última instância, corrupções capitalistas: operações voltadas ao lucro, ao enriquecimento privado, ao privilégio e à concentração de poder. Por isso, o desafio não consiste em criminalizar a política em si, mas em enfrentar a lógica estrutural do capital que a captura e a degrada. Somente assim a política poderá deixar de ser instrumento de poucos e tornar-se, enfim, espaço de democracia radical.