Letras Maquínicas
Out. 2026
Por Alvaro Luiz.
Como viver nesse mundo, como crer na imanência, isto é, crer no mundo sem recorrer a instâncias transcendentes? Essa pergunta atravessa a história das lutas políticas, das revoluções e das tentativas de inventar novas formas de vida. Podemos distinguir, nesse sentido, três figuras que enfrentam a imanência: o revolucionário, o hacker e o vidente. Cada uma delas expressa uma maneira particular de se relacionar com o poder, com o futuro e com as possibilidades de mudança social.
O revolucionário acredita na transformação política da sociedade por meio da conquista do poder. O hacker, por sua vez, não deposita suas esperanças em uma revolução nem se orienta necessariamente por um projeto coletivo de emancipação. Seu interesse consiste em encontrar brechas no funcionamento do sistema para conquistar vantagens, ampliar suas possibilidades de ação e escapar das posições que lhe foram impostas. O vidente, tal como podemos pensá-lo a partir da filosofia de Gilles Deleuze, desloca o problema da transformação para outro plano: trata-se de desenvolver a capacidade de perceber o intolerável nas formas de vida existentes e de produzir novas maneiras de sentir, pensar e existir.
Essas três figuras são três modos de se relacionar com o mundo e com suas possibilidades de transformação. Suas diferenças permitem interrogar os limites da consciência política tradicional, as estratégias de sobrevivência e adaptação à ordem vigente e a emergência de formas de existência capazes de romper com os valores estabelecidos.
O revolucionário é atravessado pela consciência política clássica. Ele reconhece as contradições da sociedade, identifica as relações de dominação e compreende que a transformação das condições de existência exige uma intervenção sobre as estruturas de poder. A exploração econômica, as desigualdades sociais e as diferentes formas de opressão aparecem, nessa perspectiva, como problemas que demandam uma transformação coletiva e organizada.
Sua ação está orientada por uma expectativa fundamental: a revolução é possível. Existe um futuro a ser construído, uma sociedade a ser conquistada e uma nova organização da vida coletiva a ser instituída. O revolucionário age em nome dessa possibilidade, subordinando suas escolhas presentes a um projeto de transformação que deverá se realizar historicamente.
A tomada do poder ocupa um lugar central nessa concepção. Para transformar a sociedade, seria necessário conquistar o aparelho de Estado, substituir as classes dirigentes e instaurar um governo revolucionário capaz de reorganizar as instituições e as relações sociais. A conquista do poder político representaria, assim, a condição para a realização de um projeto coletivo de emancipação.
O revolucionário acredita que a transformação das estruturas políticas poderá modificar as condições de vida da população. A revolução promete alterar as relações de propriedade, as formas de distribuição da riqueza, as instituições e os mecanismos de reprodução das desigualdades. O futuro revolucionário aparece como a possibilidade de uma vida melhor, organizada segundo princípios de justiça e liberdade.
Essa perspectiva possui uma força histórica inegável. Ela permite compreender a dominação como uma relação social e mobiliza a ação coletiva contra condições de existência consideradas injustas. Entretanto, também suscita uma questão: até que ponto a conquista do poder e a instauração de um novo governo são suficientes para transformar os modos pelos quais as pessoas sentem, desejam, pensam e vivem?
Uma revolução pode modificar as instituições sem necessariamente produzir uma transformação correspondente nos afetos, nos hábitos, nas percepções e nos desejos. As formas de dominação podem sobreviver à mudança de governo, reproduzindo-se em novas instituições e relações sociais. A expectativa de um futuro emancipado também pode levar à subordinação da vida presente a um projeto que promete realizar suas possibilidades somente mais adiante.
O problema não consiste em negar a importância das lutas políticas, mas em perguntar se a transformação da sociedade pode ser reduzida à consciência política, à conquista do poder e à realização de um programa revolucionário.
O hacker: a arte de se dar bem no interior do sistema
O hacker, tal como o conceito é empregado aqui, não é necessariamente um especialista em informática. Trata-se de uma figura social que aprende a explorar as brechas de um sistema para conquistar poder, obter vantagens e ampliar suas possibilidades de ação. Seu objetivo não é derrubar ou transformar a ordem vigente, mas descobrir como fazê-la funcionar a seu favor.
O hacker não está particularmente interessado na política enquanto projeto de transformação coletiva. Também não precisa acreditar em uma revolução futura. Seu problema é mais imediato: como se movimentar em um mundo cujas regras foram estabelecidas por outros? Como conquistar uma posição em uma sociedade que lhe nega determinados direitos, oportunidades ou formas de reconhecimento? Como escapar das condições que lhe foram impostas sem necessariamente modificar as estruturas que as produzem?
Sua ação consiste em observar o funcionamento do sistema, identificar seus mecanismos e encontrar maneiras de utilizá-los estrategicamente. Onde outros encontram uma barreira, ele procura uma passagem. Onde uma norma estabelece uma limitação, ele investiga as possibilidades de contorná-la. Seu objetivo é obter algum poder dentro de uma ordem que não foi organizada para favorecê-lo. Ocorre que ele não fará isso obedecendo ao sistema, como o trabalhador dócil que aceita as regras do jogo, internaliza suas exigências e procura conquistar uma posição melhor por meio de uma ilusória meritocracia. Ele fará hackeando o sistema: observando seu funcionamento, identificando suas brechas e explorando suas contradições para alcançar aquilo que lhe é sistematicamente negado.
O hacker pode, inclusive, utilizar o próprio preconceito que sofre como recurso. Uma característica socialmente desvalorizada pode ser convertida em instrumento de negociação, reconhecimento ou vantagem. Uma posição de inferioridade pode ser explorada para produzir determinadas oportunidades. A identidade que lhe foi atribuída pelo sistema deixa de funcionar exclusivamente como uma marca de submissão e passa a ser mobilizada como uma ferramenta de ação.
Isso não significa que o preconceito deixe de produzir efeitos ou que sua utilização estratégica transforme as relações que o sustentam. Muito ao contrário. Significa que o hacker aprende a jogar com as condições existentes, inclusive com aquelas que o prejudicam. Em vez de esperar pela transformação da sociedade, procura modificar sua própria posição dentro dela.
É importante, contudo, distinguir a capacidade de escapar de uma situação da capacidade de transformar as condições que a produzem. O hacker pode conquistar vantagens reais, romper limitações e construir espaços de ação. Entretanto, sua estratégia também contribui para a reprodução do sistema, pois o êxito individual não implica necessariamente a transformação das relações sociais. Ele pode escapar de uma posição subalterna sem questionar a estrutura que continua produzindo a subalternidade de outros.
O hacker não precisa acreditar na ordem existente para saber utilizá-la. Pode desprezar suas regras, ridicularizar seus valores e, ainda assim, depender de seu funcionamento para prosperar. Sua relação com o sistema é essencialmente pragmática: importa menos a legitimidade das regras do que a possibilidade de encontrar nelas uma brecha.
O hacker não representa qualquer ameaça efetiva aos valores estabelecidos. Muito pelo contrário, sua ação contribui para a reprodução do sistema, na medida em que sua finalidade consiste em conquistar vantagens dentro da ordem existente, e não em transformar as condições que a sustentam. Ainda que transgrida normas, subverta convenções e desafie as posições que lhe foram destinadas, ele não coloca em questão os princípios que organizam a sociedade. Desse modo, aquilo que poderia parecer uma contestação da ordem converte-se em uma estratégia de adaptação às suas exigências. O hacker pode subverter as hierarquias sem questionar a hierarquia enquanto tal, conquistar poder sem contestar as relações de poder e escapar de sua posição subordinada sem se opor às condições que continuam produzindo a subordinação dos demais.
Na filosofia de Gilles Deleuze, a figura do vidente adquire especial importância em sua reflexão sobre o cinema, particularmente em A imagem-tempo. A experiência da vidência emerge quando os esquemas habituais de percepção e ação entram em crise. O personagem já não consegue responder às situações por meio de reações sensório-motoras adequadas, como se o mundo apresentasse problemas aos quais bastaria encontrar respostas práticas. Ele se encontra diante de situações que excedem sua capacidade habitual de agir e que exigem outra relação com aquilo que vê.
O vidente vê aquilo que antes permanecia encoberto pelos hábitos, pelas convenções e pelos mecanismos ordinários de adaptação. O mundo deixa de ser percebido exclusivamente como um conjunto de situações sobre as quais se pode agir, reagir ou encontrar soluções. Ele passa a revelar aspectos intoleráveis de sua própria organização. O vidente vê demais, ou vê de outra maneira, e já não consegue continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.
Podemos deslocar essa figura para o campo da política, desde que preservemos sua especificidade conceitual. O vidente não é alguém que adquiriu uma consciência política mais esclarecida. Tampouco é aquele que prevê o futuro ou possui uma compreensão privilegiada do destino histórico. Sua diferença está na transformação de sua relação com o presente: ele percebe algo que torna impossível a continuidade de determinados modos de existência.
Nesse sentido, a vidência desloca a tomada de consciência política em direção a uma mutação afetiva. Não se trata de abandonar o pensamento, a análise ou a ação política, mas de reconhecer que uma transformação pode começar quando os modos habituais de sentir e perceber deixam de funcionar. Algo se torna insuportável. O que antes era tolerado, naturalizado ou aceito como inevitável passa a exigir outra relação com o mundo.
A mutação afetiva não equivale a uma emoção passageira nem a uma reação moral diante de uma injustiça. Ela envolve uma alteração naquilo que um corpo pode suportar, naquilo que consegue perceber e nas relações que consegue estabelecer. O intolerável afeta a própria possibilidade de continuar vivendo segundo os mesmos hábitos e convenções.
Por isso, o vidente não se define pela crença em um futuro revolucionário. Sua ação não depende da promessa de que, em algum momento, a sociedade será transformada por um governo capaz de realizar um projeto de emancipação. O que importa é o devir-revolucionário: a produção de transformações que começam a modificar, no presente, as maneiras de viver, sentir, pensar e se relacionar.
A distinção entre revolução e devir revolucionário não significa que toda transformação institucional seja irrelevante. Significa que a possibilidade de transformação não pode ser inteiramente subordinada à conquista do poder estatal ou à realização futura de um programa político. Um devir revolucionário pode surgir em práticas, relações, experimentações e formas de vida que rompem com as coordenadas dominantes da existência, produzindo possibilidades que não estavam previstas pela ordem vigente.
O vidente também desloca o problema do governo para o dos modos de existência. A questão colocada é a seguinte: que maneiras de viver estamos produzindo, quais relações estamos tornando possíveis e que capacidades de sentir, pensar e agir estamos desenvolvendo?
Os modos de existência são atravessados por condições materiais, relações de poder e formas coletivas de organização. A questão é compreender que nenhuma transformação política está completa quando deixa intocados os mecanismos pelos quais os sujeitos continuam reproduzindo, em suas próprias vidas, as relações que pretendiam combater.
O vidente rompe com a percepção sensório-motora habitual porque já não consegue ajustar-se automaticamente ao funcionamento do mundo. Diante do intolerável, a adaptação deixa de ser uma resposta suficiente. Ele precisa inventar outras relações, outros gestos e outras possibilidades de existência. Sua vidência não oferece um programa pronto para o futuro; ela abre um campo de experimentação no presente.
Nesse aspecto, o vidente se distingue tanto do revolucionário quanto do hacker. O revolucionário busca transformar a sociedade por meio de um projeto político orientado para o futuro. O hacker aprende a utilizar as condições existentes para conquistar vantagens e escapar de determinadas limitações. O vidente, por sua vez, experimenta uma transformação na própria relação com o mundo, que torna possível a invenção de modos de existência irredutíveis à adaptação ao sistema ou à espera por sua transformação institucional.
A vidência não garante, por si mesma, uma política emancipatória. Ver o intolerável não determina automaticamente quais ações devem ser realizadas, e a ruptura com os hábitos existentes não produz necessariamente relações mais livres. É preciso que a mutação afetiva se articule à experimentação de outras práticas e à construção de novas relações. Ainda assim, a figura do vidente permite pensar uma dimensão da transformação política que não se reduz à tomada de consciência, à conquista do poder ou à habilidade de sobreviver dentro da ordem vigente.
O revolucionário, o hacker e o vidente expressam três maneiras de enfrentar os limites do mundo existente. O primeiro acredita na transformação das estruturas sociais por meio da conquista do poder e da realização de um projeto coletivo de emancipação. O segundo procura escapar das limitações impostas pelo sistema, explorando suas brechas e utilizando suas regras em benefício próprio. O terceiro experimenta uma transformação na percepção e nos afetos que modifica sua relação com o presente e abre possibilidades para a invenção de outros modos de existência, sempre coletivos, sempre ligados ao comum.
O revolucionário nos ensina que a ordem social não é imutável e que as relações de dominação podem ser combatidas coletivamente. O hacker demonstra que as regras nunca esgotam todas as possibilidades de ação e que mesmo aqueles a quem o poder é negado podem encontrar meios de intervir no funcionamento do sistema. O vidente, entretanto, coloca um problema que atravessa as duas figuras: como deixar de reproduzir, em nossos próprios modos de vida, aquilo que pretendemos combater?
Não basta conquistar o poder se os modos de existência permanecem subordinados às mesmas formas de dominação. Tampouco basta aprender a se dar bem dentro do sistema. É preciso produzir uma ruptura na própria maneira como percebemos, sentimos e habitamos o mundo.
É por isso que o mundo precisa de videntes, pessoas capazes de ver o intolerável onde os outros aprenderam a se adaptar. Pessoas que já não consigam aceitar como natural aquilo que destrói possibilidades de vida e que, a partir dessa impossibilidade de continuar vivendo da mesma maneira, experimentem outras relações, outros afetos e outras formas de existência.
O vidente não espera que o futuro chegue para começar a transformação. Ele faz da impossibilidade de continuar vivendo como antes a condição para inventar outras maneiras de viver. Sua política começa quando a adaptação deixa de ser suficiente e a vida exige a criação de novas possibilidades.Ser vidente é ser capaz de ver aquilo que o mundo nos obriga a não ver e de criar, a partir daí, formas de vida que ainda não encontram lugar na ordem existente.
O vidente é, portanto, a figura que verdadeiramente crê no mundo, que aposta na imanência e nas possibilidades de criação que atravessam a própria vida. No fundo, o revolucionário permanece idealista, pois deposita sua esperança em um futuro que deverá redimir o presente, em uma sociedade por vir que dará sentido às lutas de hoje. O hacker, por sua vez, é um niilista: não acredita na transformação do mundo nem na possibilidade de criação de novos valores; limita-se a jogar com os valores existentes, utilizando-os em benefício próprio. O vidente rompe com essas duas posições porque não espera a realização de um ideal transcendente nem se resigna ao mundo tal como ele é. Sua crença não se dirige a um mundo ideal, situado no futuro, mas às possibilidades ainda não realizadas deste mundo, às forças que nele germinam e aos devires capazes de alterar o curso da existência. Crer no mundo significa, nesse sentido, acreditar que a vida pode produzir novas formas de existência sem precisar de garantias exteriores, de modelos a realizar ou de valores previamente estabelecidos. É essa crença imanente que permite ao vidente ver o intolerável e, ao mesmo tempo, afirmar que outras maneiras de viver são possíveis. Não se trata de esperar por outro mundo, mas de tornar possível, neste mundo, aquilo que ainda não conseguimos viver.