Letras Maquínicas
Mai. 2026
Walter Benjamin: o trapeiro da revolução
Por Alvaro Luiz.
O capitalismo produz envelhecimento. Essa é uma das intuições mais potentes de Walter Benjamin. Sob o capitalismo, as coisas não desaparecem porque concluíram seu ciclo natural de existência; elas são condenadas prematuramente à obsolescência. O novo precisa surgir continuamente, não como necessidade humana, mas como imperativo econômico. Para que o sistema continue funcionando, aquilo que ainda é últil deve parecer ultrapassado. O capitalismo fabrica ruínas.
Essa lógica não se aplica apenas aos objetos técnicos ou aos produtos culturais. Ela atravessa toda a experiência social. Modos de vida, sensibilidades, formas de relação, ideias políticas e até mesmo memórias tornam-se descartáveis. O capitalismo acelera o tempo para impedir a duração. A permanência se torna um problema porque ameaça o consumo incessante do novo. A novidade deixa de ser experiência e se transforma em estratégia de lucro.
É nesse contexto que surge a figura do trapeiro, tão cara a Benjamin, como força de resistência. O trapeiro recolhe aquilo que foi abandonado pela cidade moderna: restos, objetos sem valor comercial, fragmentos esquecidos. Ele realiza uma operação política sobre o tempo, resgata aquilo que o capitalismo declarou morto. Sua tarefa consiste em arrancar os objetos do circuito da obsolescência e devolvê-los à experiência.
Há algo profundamente subversivo nesse gesto. Em uma sociedade organizada pela compulsão do descarte, conservar torna-se resistência. O antiquado passa a possuir uma força crítica. Coisas consideradas “superadas” carregam outra relação com o tempo. São formas de desaceleração, criação de entretempo ou tempo próprio, diante da velocidade destrutiva do capital.
O capitalismo não envelhece apenas objetos; ele envelhece possibilidades históricas. A modernidade capitalista produz uma espécie de bloqueio dos campos de possíveis: determinadas ideias são transformadas em “coisas do passado” antes mesmo de terem sido plenamente realizadas. Gilles Deleuze e Félix Guattari dizem: "Maio de 68 não ocorreu". No livro Em defesa das causas perdidas, Slavoj Žižek argumenta que muitas experiências revolucionárias, derrotadas politicamente, foram convertidas em sinônimo de fracasso absoluto. O capitalismo não se contenta em vencer seus adversários; ele precisa tornar impensável o retorno deles.
Por isso certas palavras parecem carregar um peso arqueológico: socialismo, revolução, comunismo, coletividade, utopia. O sistema trabalha incessantemente para apresentá-las como ideais de um século encerrado. O futuro é seguidamente fechado pela repetição infinita do presente capitalista. A famosa frase de Fredric Jameson — segundo a qual é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo — pode ser vista como o sintoma mais acabado desse bloqueio das possibilidades.
Acredito que é precisamente nesse ponto que a reflexão pode se inverter. Se, como diz Benjamin, o capitalismo transforma tudo em velho para sobreviver, talvez a tarefa revolucionária seja tornar velho o próprio capitalismo.
A frase do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, continua atual: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Normalmente ela é utilizada para descrever a potência dissolvente do capital. O capitalismo destrói tradições, dissolve vínculos e reorganiza continuamente a vida social. Mas a frase também pode ser revertida contra o próprio sistema. E se essa forma de organização econômica e social que hoje parece naturalizada se tornasse antiquada? E se os pilares do capitalismo passassem a produzir a mesma sensação de anacronismo que hoje sentimos diante de formas sociais que ele declarou mortas?
A propriedade privada dos meios de produção, por exemplo, poderia começar a aparecer como uma estrutura arcaica. A figura do bilionário talvez venha a parecer tão obscena quanto parecem hoje certas aristocracias do passado. A exploração da força de trabalho poderia se tornar moralmente intolerável da mesma forma que outras formas históricas de dominação se tornaram intoleráveis após longos processos de transformação social.
Seria um fenômeno de vidência, tal como colocado por Deleuze e Guattari: e se uma sociedade visse de súbito o que ela continha de intolerável? Existe sempre um momento em que as estruturas de poder podem perder sua legitimidade sensível. Antes de ruir politicamente, um sistema precisa envelhecer afetivamente. Ele precisa deixar de convencer os corpos.
Talvez toda transformação revolucionária comece aí: quando aquilo que sustentava a realidade passa a parecer insuportavelmente velho.
A meu ver, a crítica do capitalismo não depende apenas de análises econômicas ou programas políticos. Ela exige também uma disputa estética e sensível sobre a percepção. O capitalismo triunfa porque consegue associar-se à imagem do novo. Mesmo quando produz modelos arcaicos, exploração do trabalho, catástrofe ambiental, precarização da vida e devastação subjetiva, ele continua aparecendo como a única forma possível de modernidade.
É preciso romper exatamente essa associação. Fazer o capitalismo parecer antigo. Revelar o quanto suas estruturas pertencem a um mundo esgotado. Expor a velhice de suas promessas de progresso infinito, crescimento ilimitado e consumo permanente.
Benjamin compreendeu algo crucial: quando o Outrora — aquilo que foi declarado morto pelo capitalismo— encontra o Agora em um instante de fulguração, forma-se uma constelação anacrônica: um choque entre tempos distintos que ilumina o presente e libera as forças adormecidas do passado para produzir uma ruptura política. Existem forças soterradas sob os escombros da modernidade capitalista. Vozes silenciadas, projetos interrompidos, experiências derrotadas. Mas, uma vez abertas, as portas do possível nunca mais fecham. Bastas abri-las novamente. Maio de 68 ainda pode acontecer. O mesmo para junho de 2013. O trapeiro benjaminiano não recolhe apenas objetos abandonados; ele recolhe possibilidades de vida ou, como na fórmula que Deleuze gostava de citar ele recolhe: “um pouco de possível” para não sucumbir aos agenciamentos sufocantes do capital.
A meu ver, resistir ao capitalismo implica justamente essa dupla operação temporal: salvar aquilo que o sistema declarou obsoleto e, ao mesmo tempo, acelerar o envelhecimento das estruturas que ainda o sustentam. Porque a verdadeira novidade política consiste na atualização das forças adormecidas do Outrora.