YHWH é uma montanha? As origens do Deus do Antigo Testamento
Por Alvaro Luiz
Quem era YHWH antes de se tornar o Deus único? Essa é uma das perguntas mais fascinantes da história das religiões. Hoje, bilhões de pessoas identificam YHWH como o Deus de Israel, do judaísmo e, posteriormente, do cristianismo. Mas as evidências históricas e arqueológicas apontam para um passado muito mais complexo.
Muito antes do monoteísmo, o antigo Oriente Próximo era um mundo povoado por deuses. Cada cidade possuía sua divindade protetora. Cada reino tinha seu deus nacional. Montanhas, rios, desertos e tempestades eram concebidos como manifestações do sagrado.
Nesse universo religioso, YHWH parece ter surgido como uma divindade regional. Seu próprio nome revela isso. Antes de ser chamado de "o Senhor", ele era conhecido por um nome próprio: Yahû, Yahô, Javé... YHWH.
Os mais antigos poemas da Bíblia preservam uma memória surpreendente. Eles dizem que YHWH vem do Sul. "O Senhor veio de Seir." "Resplandeceu desde o monte Parã." Essas informações aparecem em textos como Juízes 5, Deuteronômio 33 e também no Salmo 68. Neles, YHWH avança como um guerreiro. As montanhas tremem. O céu derrama chuva. A terra inteira estremece diante de sua presença.
Ele vem das estepes. Do deserto. Das montanhas áridas que separavam Canaã da Arábia. Essa tradição bíblica encontra um eco fora das Escrituras. Inscrições egípcias datadas do final da Idade do Bronze mencionam grupos nômades conhecidos como shasu. Entre eles aparece uma expressão que muitos estudiosos interpretam como "os shasu de YHW".
Se essa interpretação estiver correta, trata-se da mais antiga referência conhecida ao nome de YHWH, séculos antes da formação do reino de Israel. Talvez, naquele tempo, YHWH fosse o deus protetor desses povos nômades. Uma divindade ligada a uma montanha.
Um deus do deserto. Um deus da guerra. Para compreender essa origem, é preciso voltar ao final da Idade do Bronze. O mundo atravessava uma das maiores crises de sua história. Secas prolongadas. Mudanças climáticas. Migrações em massa. Reinos inteiros desapareciam. Rotas comerciais entravam em colapso. A guerra tornava-se constante. Nesse cenário, uma divindade guerreira representava proteção, sobrevivência e esperança. Não por acaso, os antigos poemas bíblicos descrevem YHWH marchando à frente de seu povo como um comandante militar.
YHWH era também um deus da tempestade. Quando se aproximava, o céu escurecia. Os relâmpagos riscavam o horizonte. As nuvens se rompiam. As montanhas pareciam derreter. São descrições típicas das antigas divindades das tempestades veneradas em todo o Levante. Em algum momento, porém, a história mudou.
Grupos que cultuavam YHWH encontraram uma confederação de tribos que começava a formar aquilo que seria Israel. Não sabemos exatamente como esse encontro aconteceu. Nenhum documento extrabíblico o descreve. Mas um antigo poema preservado no Deuteronômio parece guardar sua lembrança. Ali, YHWH torna-se rei quando as tribos de Israel se reúnem em assembleia. Estaria aí o registro poético da adoção de um novo deus por um novo povo?
Naquele período, YHWH ainda não ocupava sozinho o topo do universo. O panteão cananeu era presidido por El, o antigo pai dos deuses. Durante séculos, porém, as características de El foram sendo progressivamente incorporadas por YHWH. O deus guerreiro do deserto tornou-se também criador do céu e da terra. Senhor da natureza. Juiz das nações. Soberano absoluto.
A transformação, entretanto, ainda não havia terminado. No século VI antes da nossa era, Jerusalém foi destruída. O Templo foi reduzido a ruínas. A elite de Judá foi deportada para a Babilônia. Parecia o fim. Mas foi justamente durante essa catástrofe que nasceu uma nova compreensão de Deus. Os autores responsáveis pela grande obra histórica conhecida hoje como História Deuteronomista propuseram uma interpretação revolucionária. A Babilônia não havia vencido porque seus deuses eram mais fortes. Pelo contrário. Foi o próprio YHWH quem utilizou o império babilônico para julgar Israel.
Se ele podia controlar o maior império da época, então também governava todos os povos da Terra. Essa ideia abriria caminho para uma das maiores revoluções religiosas da humanidade. Os capítulos finais do livro de Isaías afirmam algo sem precedentes. Não existem outros deuses. Os ídolos das nações não passam de obras produzidas pelas mãos humanas. Somente YHWH existe. Somente ele criou os céus. Somente ele sustenta o universo.
O antigo deus ligado a uma montanha ao sul havia se tornado o Deus de toda a criação. Séculos mais tarde, uma nova etapa ampliaria ainda mais essa transformação. Quando a Torá foi traduzida para o grego, durante o período helenístico, suas narrativas ultrapassaram definitivamente as fronteiras do mundo judaico. Pela primeira vez, leitores de todo o Mediterrâneo puderam conhecer aquele Deus cuja história começara entre nômades, desertos e uma montanha tornada sagrada.
Assim, a trajetória de YHWH atravessa mais de um milênio de transformações. De divindade regional, a deus nacional. De deus nacional ao criador do universo. Uma evolução religiosa que moldou a história do Ocidente e influenciou profundamente a forma como bilhões de pessoas compreendem Deus até os dias de hoje.
Referências:
RÖMER, Thomas Christian. A Origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2016.