Letras Maquínicas
Jan. 2026
A doença do clichê
Por Alvaro Luiz.
Qual é o elo entre o sofrimento psíquico e a maneira como percebemos o mundo? Mais precisamente: qual a relação entre os chamados transtornos mentais e os clichês que condicionam nossa percepção da realidade? As letras maquínicas que seguem propõem que o sofrimento psíquico pode ser compreendido como efeito de uma formação perceptiva histórica, centrada no que Henri Bergson e Gilles Deleuze chamaram de esquema sensório-motor.
Ao longo do século XX, Deleuze mostrou que a percepção ordinária não é neutra nem contemplativa: ela é funcional. Percebemos para agir, e agimos segundo expectativas socialmente codificadas. A percepção prolonga-se em ação; a ação confirma a percepção. Esse circuito define o que se entende por comportamento “normal”. O problema é que, na contemporaneidade, esse esquema não apenas organiza a ação: ele coloniza a percepção, produzindo uma verdadeira civilização do clichê.
Em Bergson, o esquema sensório-motor descreve um sistema no qual o organismo seleciona da realidade apenas aquilo que interessa à ação. Não vemos tudo: vemos o que é útil. Deleuze radicaliza essa ideia ao mostrar que a percepção humana, longe de ser abertura ao real, tende a se organizar como automatismo prático, um encadeamento de estímulos e respostas.
Esse esquema funciona relativamente bem em situações ditas normais. Ele garante adaptação, previsibilidade, reconhecimento. Contudo, quando esse modelo se generaliza e se absolutiza, deixa de ser apenas um dispositivo funcional e torna-se uma forma de governo da vida.
Na contemporaneidade, o esquema sensório-motor já não organiza apenas a relação indivíduo–mundo; ele estrutura expectativas sociais, papéis morais e identidades normativas.
O esquema sensório-motor determina antecipadamente o que se espera de alguém em uma dada situação. Espera-se algo de uma mulher, de um homem, de uma criança, de um adulto, de um trabalhador, de um estudante, de uma dona de casa. O comportamento passa a ser moralizado, avaliado conforme sua adequação às demandas do papel social.
Para que essa adequação seja possível, o sujeito dispõe de um arsenal de clichês físicos e psíquicos, exteriores e interiores. O corpo aprende gestos esperados; a psique interioriza narrativas prontas. O interior deve corresponder ao exterior. Um clichê é, assim, a imagem sensório-motora da coisa, uma forma estabilizada de perceber, sentir e agir.
Esses clichês cumprem ainda outra função decisiva: sedar. Eles nos ajudam a tolerar as misérias do mundo. Ao reconhecer tudo, já não somos afetados por nada.
O esquema sensório-motor não apenas produz comportamentos, mas inventa um mundo unívoco, contínuo, amortecido. Vivemos dentro de redomas sensório-motoras: shoppings centers com clima perfeito, automóveis isolados do exterior, experiências audiovisuais industrializadas, telas de celulares, playlists que nos conduzem ao trabalho, trilhas sonoras que organizam afetos.
Esses ambientes estetizados nos separam do real ao mesmo tempo em que nos fazem crer que estamos imersos nele. A vida transcorre “normalmente” dentro desse invólucro, enquanto o intolerável — exploração, desigualdade, violência, devastação, exploração — passa despercebido.
Trata-se de uma fetichização generalizada da percepção: cores, sons, imagens e ritmos são mercantilizados para produzir docilidade.
O problema emerge quando, em algum momento da vida, já não conseguimos mais suportar esse mundo organizado pelo esquema sensório-motor. A percepção automatizada entra em colapso. A ação já não se prolonga naturalmente da percepção. Surge o sofrimento psíquico.
Adoecemos porque já não conseguimos aceitar as misérias do mundo. Ficamos doentes de história, de cultura, de capitalismo. É a doença do clichê: excesso de estímulos, excesso de demandas, excesso de papéis, excesso de obrigações.
Nesse momento, necessitamos de “um pouco de possível”, como diria Deleuze. No entanto, o que nos é oferecido como cura é justamente o retorno às mesmas condições de possibilidade que nos sufocava.
Sem compreender que o sofrimento está ligado à forma como percebemos o mundo, somos dopados ou submetidos a técnicas de comportamento destinadas a restaurar a adaptação. A psiquiatria, o coaching, o empreendedorismo motivacional, a pastoral religiosa e o discurso da autoajuda convergem em um mesmo ponto: reensinar a aceitar.
Aqui ecoa a canção de Raul Seixas: “O velho papo do tal psiquiatra que te ensina como é que você vive alegremente acomodado e conformado…”
O “velho papo” convive hoje com seu duplo contemporâneo: o discurso do desempenho, da positividade e da autoexploração. Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: neutralizar o desvio, reconduzir o sujeito à engrenagem da máquina social.
A questão decisiva então se impõe: quem estava doente? O mundo ou o sujeito? Ou melhor: que tipo de sujeito?
O que adoece é o “eu” em nós, esse ente produzido pela máquina social abstrata. Um sujeito cercado por clichês físicos e povoado por clichês psíquicos. Fixado no muro branco da significância (homem, mulher, profissão, identidade) e sugado pelo buraco negro da subjetividade (memória, imaginário, consciência), o sujeito aceita o jogo da rostificação e passa a vida tentando se adequar ao Rosto dominante, para falar como Deleuze e Guattari.
Como escreve Mark Fisher, os transtornos afetivos são formas de descontentamento capturado. O erro está em medicalizar aquilo que é, antes de tudo, antagonismo social.
A sociedade contemporânea encoraja a não pensar. Pensar dá trabalho, e as pessoas já trabalham o dia inteiro. No entanto, o pensamento é um aliado da saúde mental. Pensar rompe o automatismo sensório-motor.
Deleuze distingue a percepção actante — aquela que reconhece e reage — da percepção vidente, que suspende a ação e se abre ao intolerável. Ver, aqui, não é reconhecer; é ser afetado. É permitir que algo do real atravesse o invólucro.
A saúde mental não passa por uma adaptação perfeita, mas pela capacidade de ver e falar de outro modo.
Nietzsche já havia diagnosticado o problema: a civilização ocidental começa proibindo o homem de ser feliz, de ter tempo para pensar, instaurando a tristeza, a culpa e o pecado. A doença não é individual; é civilizacional.
Artaud radicaliza: o suicida é sempre um suicidado. A sociedade mata antes que o indivíduo morra.
Contra a doença do clichê, Deleuze e Guattari propõem a esquizoanálise: não como técnica clínica, mas como linha de fuga. Uma política da percepção, do desejo e da vida. Uma aposta na "grande saúde", conforme o conceito proposto por Nietzsche, que não é ausência de sofrimento, mas potência de criação.
O sofrimento psíquico contemporâneo não pode ser separado da forma como percebemos o mundo. O esquema sensório-motor, ao se tornar absoluto, produz clichês que moldam comportamentos, anestesiam afetos e inventam um mundo no qual aprendemos a tolerar o intolerável.
Adoecemos quando já não conseguimos mais aceitar esse mundo. A verdadeira questão, portanto, não é como nos adaptar melhor, mas como ir mais longe na desadaptação, romper o invólucro, reinventar a percepção e abrir linhas de fuga criativas de desejo.
Tudo começa com ver e falar. Ver de outro modo. Falar de outro modo. Produzir fissuras no mundo-tela. Talvez seja isso, hoje, pensar a saúde mental: não como normalização, mas como resistência à civilização do clichê.
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