Letras Críticas
Jan. 2026
A invasão dos Estados Unidos na Venezuela e os microfascismos cotidianos
Por Alvaro Luiz.
Donald Trump invade a Venezuela, mata mais de cem pessoas, incluindo civis inocentes, e sequestra Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. A reação mais imediata, e talvez a mais confortável, seria explicar esse acontecimento recorrendo a categorias macropolíticas já conhecidas, mas atualizadas: “novo imperialismo”, “geopolítica”, “interesses estratégicos”, “hegemonia”. Essas explicações, embora não sejam falsas, funcionam como dispositivos de apaziguamento. Nomeiam o acontecimento, encerram-no em condições de possibilidade e produzem aquele suspiro moral que nos permite seguir adiante: "então era isso". E, assim, dormimos em paz.
O problema é que esse tipo de explicação nos absolve. Ao localizar o acontecimento em uma esfera distante — o Estado, o sistema internacional, as grandes estruturas —, ela nos desliga do intolerável que nos atravessa. A violência aparece como algo que “vem de fora”, como uma fatalidade histórica, e não como algo que se produz também no interior das nossas práticas mais banais. É exatamente contra esse efeito de anestesia que a perspectiva micropolítica se coloca.
Pensar em termos moleculares não significa negar a existência das estruturas molares do poder, mas deslocar a pergunta fundamental: não mais "o que é o imperialismo?", mas como ele se torna possível? Em que nível de gestos, afetos, discursos cotidianos e pequenas concessões esse estado de coisas foi sendo preparado, naturalizado e, por fim, desejado? A questão deixa de ser exclusivamente geopolítica e passa a ser ética e micropolítica.
A micropolítica não opera no plano das grandes decisões, mas na microfísica do poder: nos enunciados repetidos sem reflexão, nas piadas que banalizam a violência, na indiferença diante do sofrimento distante, no gozo silencioso diante da humilhação do outro, na crença de que “não há alternativa”. É nesse plano que se produzem as condições subjetivas que tornam aceitável — e até desejável — que um governante invada um país, mate inocentes e se apresente como salvador da ordem.
A pergunta decisiva, portanto, não é apenas quando Trump ou qualquer outro tirano decidiu agir, mas quando nós passamos a compactuar com esse tipo de ação. Em que momento microfísico aceitamos que certas vidas são descartáveis? Em que momento aprendemos a tolerar o intolerável? Em que momento o desejo deixou de se orientar pela vida e passou a se alinhar com a repressão?
Deleuze e Guattari nos alertam para esse ponto crucial: o problema político fundamental não é apenas o poder que reprime, mas o desejo que deseja a repressão. O microfascismo não começa nos palácios, mas nos corpos; não nasce nas leis, mas nos afetos; não se impõe de cima para baixo, mas se infiltra lateralmente, molecularmente, nos modos de ver, falar e sentir. É assim que figuras como Trump ou Bolsonaro deixam de parecer aberrações e passam a funcionar como efeitos condensados de uma longa cadeia de cumplicidades microscópicas.
Quando aceitamos explicações totalizantes que encerram o acontecimento em condições de possibilidade e conceitos vazios, deixamos intacto esse plano molecular. Continuamos repetindo os mesmos gestos, consumindo as mesmas narrativas, reagindo com o mesmo cinismo ou a mesma indignação estéril. Nada muda porque o jogo já está dado. A micropolítica, ao contrário, exige que se desfaça o jogo por dentro, identificando as linhas de força que nos atravessam e interrogando o modo como participamos da produção do mundo que dizemos condenar.
Pensar molecularmente esses acontecimentos não é buscar culpados individuais nem substituir a análise estrutural por uma psicologia moral. Trata-se de reconhecer que todo estado de coisas, por mais violento que seja, é sustentado por uma trama de microdecisões, microafetos e microdesejos. É nesse plano que a política se torna realmente perigosa — e também onde ela pode ser transformada.
É claro que há problemas sérios na Venezuela, mas isso não pode servir de argumento para um tirano invadir o país, matar, sequestrar e roubar petróleo. A questão final permanece aberta e incômoda: em que momento desejamos o poder que nos oprime? Em que ponto confundimos segurança com violência, ordem com morte, força com justiça? Enquanto essa pergunta não for levada a sério, continuaremos explicando o mundo — e reproduzindo-o — com a tranquilidade de quem acredita estar fora do problema.