Letras Maquínicas
Jan. 2026
A orgia como forma superior de vida em comum
Por Alvaro Luiz.
Deleuze diz que a simpatia não é um sentimento vago de estima, tampouco uma participação espiritual abstrata entre sujeitos. A simpatia, para ele, é esforço; é penetração dos corpos: uma relação material e concreta entre forças. A simpatia é um co-funcionamento: simbiose. Simpatizar não é concordar nem identificar-se; é entrar em contato, deixar-se atravessar, suportar a intensidade do encontro. Trata-se de uma ética do corpo (qualquer corpo, humano, verbal, vegetal, qualidades, paixões, ações, almas etc.), não de uma moral da consciência. É um Todo que simpatiza.
Na contemporaneidade, a simpatia é urgente. Vivemos um paradoxo central da era digital: quanto mais conectados estamos, mais nos isolamos. As tecnologias que prometiam proximidade produzem, na prática, uma nova forma de afastamento. Os stories das redes sociais são exemplares desse fenômeno: representações egóicas de si, exercícios contínuos de autopromoção, imagens cuidadosamente editadas que não passam de delírios de presença. O contato é substituído pela exibição; o encontro, pela vitrine. Vivemos, assim, uma crescente pobreza de contato.
Os efeitos desse empobrecimento são visíveis e devastadores: depressão, solidão, ansiedade, esgotamento. A crise subjetiva parece estar diretamente relacionada a uma perda objetiva da potência de contato. Quando o contato se enfraquece, enfraquece também a capacidade de afetar e ser afetado, isto é, a própria possibilidade de vida em comum. E essa perda não é neutra politicamente. Ao contrário, ela produz efeitos políticos decisivos. Que política pode emergir de corpos isolados, encapsulados em si mesmos? Certamente, uma política triste.
Essa política triste nós conhecemos bem e ela está em plena ascensão no Brasil: individualismo radical, negacionismo, genocídio, ódio, xenofobia, segregação, racismo. Trata-se de uma política da separação, da exclusão e da morte — uma necropolítica. Mas o objetivo desta reflexão não é apenas diagnosticar essa paisagem triste; é afirmar a possibilidade de outra política. Uma política alegre. Uma política dionisíaca, que se opõe frontalmente à lógica necropolítica dos nossos dias.
Para isso, é necessário politizar o conceito de orgia. Em entrevista ao Roda Viva, Zé Celso Martinez Corrêa foi perguntado se acreditava no socialismo. O dramaturgo respondeu, sem hesitar, que acreditava na orgia. Roberto Schwarz observou que a pergunta central da dramaturgia inventada por Zé Celso poderia ser formulada assim: e se todo mundo se tocasse? Aqui, o termo “orgia” perde sua conotação exclusivamente sexual para alcançar uma dimensão propriamente política. A orgia, em Zé Celso, é uma luta contra a segregação, contra a separação dos corpos, contra os dispositivos que impedem o encontro.
A orgia zé-celsiana afirma a possibilidade de convivência: ninguém será barrado, todos estão convidados para a festa. Trata-se de uma política da abertura radical. O verdadeiro lugar de fala é o “lugar das misturas”. A mistura é o grande pesadelo dos fascistas, obsessivamente comprometidos com a pureza, a identidade fixa, a fronteira. Mas a mistura não é assimilação, não é apagamento das diferenças; ela é encontro fortuito, união de corpos, acumulação de presenças.
Aqui emerge a ideia de uma comunidade sem comunhão. Não uma fusão dos indivíduos em um Uno homogêneo, mas a experiência de estar junto com os outros na convivência das diferenças. A potência do “estar junto” é, muitas vezes, mais libertadora do que a perseguição de um objetivo comum. O encontro entre os diferentes, a experiência do comum sem identidade, é aquilo que torna possível uma política não totalitária.
A própria civilização grega se desenvolveu a partir do encontro entre povos de origens diversas, estilos de vida distintos, práticas heterogêneas. Não foi a pureza que gerou potência, mas a mistura. A política, nesse sentido, pode ser pensada como um psicodrama coletivo, como uma encenação viva dos afetos, dos conflitos e das alianças.
A orgia é o encontro que mantém a diferença. É preciso se tocar — não no sentido sexual, mas existencial. Trata-se de um amor coletivo, de uma afirmação radical da vida do outro. A orgia, em sua dimensão política, é a vontade de que o outro viva. Por isso, ela é essencialmente alegre. A política dionisíaca é possível, sim. Heliogábalo, a anarquia coroada, a explosão dos códigos, o corpo sem órgãos como recusa das hierarquias fixas.
Deleuze define o estoicismo da seguinte maneira: "Jamais mundo mais sombrio e mais agitado foi exposto...mas também as qualidades são corpos, sopros e as almas são corpos, as ações e as paixões são elas próprias corpos. Tudo é mistura de corpo, os corpos se penetram, se forçam, se envenenam, se imiscuem, se retiram, se reforçam ou se destroem, como o fogo penetra no ferro e o torna vermelho, como o comedor devora a sua presa, como o apaixonado se afunda na amada".
Se tudo se reduz a um duelo de forças — ativas e reativas —, com a política não poderia ser diferente. Há uma política alegre, fundada no encontro, no acolhimento e na expansão da vida, e há uma política triste, baseada na exclusão, na vingança e no ódio à alteridade. A orgia contra a cruz. A alegria contra a tristeza. Uma política imanente dos valores nobres contra uma política transcendente dos valores que rebaixam, culpabilizam e mortificam.
A orgia como política é o lugar onde os códigos de separação são recusados em favor de uma sintaxe da não violência. Contra os regimes necropolíticos da separação, contra os muros da segregação, ergue-se o corpo sem órgãos de Heliogábalo. A política como orgia.
Wilhelm Reich já afirmava que o desejo impele naturalmente os seres humanos para toda espécie de contato com o mundo, para um contato íntimo com o mundo em todas as suas formas. Quando esses contatos são reprimidos, resta apenas a possibilidade de agir dentro do círculo estreito da família. A inibição do desejo torna-se, assim, a base tanto do encerramento dos indivíduos nesse círculo quanto da formação de uma consciência estritamente pessoal e individualista.
A orgia em seu sentido político é uma mistura de corpos: qualidades, paixões, ações, sopros, almas também são corpos. A orgia é um agenciamento maquínico do qual depende o acontecimento. Tal acontecimento é o resultado dessa mistura de corpos, desse festim antropofágico, dessas causas que agem umas sobre as outras. Muitos críticos sociais se debatem com a questão "onde está a revolução?", mas a resposta se apresenta de modo muito simples: a revolução é o efeito incorporal da mistura dos corpos, logo, está na superfície; é um efeito de superfície, uma névoa, é um verbo qualquer no infinitivo que emana de um estado de coisas, de uma mistura de corpos, de uma orgia em seu sentido político. Fazer revolução é produzir um agenciamento, criar mistura de corpos.
A convivência não depende da homogeneidade, mas da convivência das diferenças. Jean-Luc Nancy critica a ideia de “comunhão”, entendida como fusão ou unidade totalizante. Em seu lugar, propõe uma comunidade sem comunhão: um espaço de coexistência em que os seres não se confundem, mas se expõem uns aos outros. Uma política do contato, da proximidade sem fusão, da orgia como forma superior de vida em comum.
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