Letras Críticas
Jan. 2026
A psicologia baseada em evidências e o Biopoder
Por Alvaro Luiz.
Em cada época, pensamos como se estivéssemos dentro de um aquário. Não percebemos o vidro, não vemos seus limites, mas é ele que define tudo aquilo que pode ser visto, dito e pensado. As verdades de uma época passada não deveriam se apresentar como erros grosseiros ou ideias ultrapassadas. Para a maior parte das pessoas que viveram em tal época, as verdades eram evidências tão óbvias que sequer foram questionadas. Cada sociedade se organiza a partir desse conjunto de verdades gerais, dentro do qual os espíritos se movem — muitas vezes à própria revelia — como peixes que giram sem jamais perceber as paredes de vidro que os cercam.
Vivemos, pensamos e conhecemos no interior desse grande aquário. O trabalho do crítico social é tentar sair do aquário — ou, ao menos, tornar o vidro visível. Colocar o aquário em dúvida significa questionar aquilo que parece mais natural, mais racional, mais verdadeiro, mais evidente: loucura, normalidade, sexualidade, punição, saber. Nada disso existe fora das formas históricas que os tornaram pensáveis. É claro que essas palavras introdutórias remetem ao pensamento de Michel Foucault.
Quando História da Loucura foi publicada, muitos historiadores franceses não perceberam de imediato a contribuição decisiva de Foucault. O livro parecia apenas reiterar algo já conhecido: que as formas de compreender a loucura mudaram ao longo dos séculos. Nada de novo, pensava-se, já que os historiadores sabiam que não existem essências eternas. Mas o gesto foucaultiano não estava aí. O que ele introduz é uma pergunta profundamente perturbadora: temos mesmo ideias melhores do que as de nossos ancestrais? Ou apenas outras? As nossas evidências são melhores que as evidências do passado?
Para Foucault, o conhecimento não é o espelho fiel da realidade. Nenhum objeto existe separado das formas discursivas que o tornam visível e pensável. A loucura, por exemplo, não é uma essência natural escondida atrás das palavras; ela é inseparável dos discursos que a constituem. Discurso, aqui, não significa opinião, mas a expressão mais precisa de uma formação social.
A tarefa do crítico social, mas também do terapeuta, é despojar os acontecimentos dos grandes discursos que os tornam banais, excessivamente racionais e aceitáveis; em uma palavra: evidentes. É tocar o acontecimento em sua nudez — e, ao fazê-lo, perceber que talvez também sejamos menos livres do que imaginamos dentro do nosso próprio aquário evidente.
A chamada psicologia baseada em evidências apresenta-se como um avanço metodológico incontestável. Amparada em protocolos, escalas, revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados, ela reivindica para si o estatuto de cientificidade e, de maneira autoritária como todo delírio científico, relega outras práticas — como a psicanálise — à condição de saberes obsoletos, não validados ou meramente opinativos. No entanto, essa reivindicação exige ser interrogada: que evidências são essas? E, sobretudo, em nome de qual concepção de verdade elas se impõem? É preciso sair desse aquário evidente ou tornar o vidro aparente.
A “evidência” invocada por esse paradigma não constitui um dado neutro ou autoevidente, mas uma forma histórica de crença, uma "obviedade" própria de nosso tempo. Como diria Foucault, trata-se de uma verdade geral: algo que ninguém mais se dá ao trabalho de questionar, justamente porque se apresenta como natural, técnica e desprovida de ideologia — quando, na realidade, opera como ideologia, agenciamento, obviedade, crença ou como quiserem chamar. A psicologia baseada em evidências não elimina as ideias gerais; ela a desloca para o plano metodológico.
A subjetividade e a experiência escapam às ideias gerais como de fato o é uma ideia de "evidência". Ainda que se pretenda singular, a ideia de evidência é profundamente geral, metafísica, que funciona na manutenção do aquário de nosso tempo. É evidente porque é senso comum. Nenhuma prática clínica pode ser legitimada exclusivamente por princípios abstratos que ignoram o caráter singular, narrativo e contingente do sofrimento psíquico.
Psicologia baseada em evidências e o Biopoder
O termo “evidência” carrega uma força retórica considerável. Algo evidente se impõe por si mesmo. A psicologia baseada em evidências opera uma inversão curiosa: ela exige demonstrações incessantes, mas jamais interroga o regime de verdade que torna essas demonstrações aceitáveis. O que se toma como evidência já pressupõe uma série de decisões ontológicas e epistemológicas: o que conta como dado, o que pode ser medido, o que deve ser comparado, o que pode ser descartado como ruído.
Foucault mostrou que toda episteme define, antes de tudo, as condições do dizível e do pensável. Assim, quando um discurso afirma que apenas intervenções mensuráveis, replicáveis e padronizáveis são válidas, ele não está descrevendo a realidade clínica, mas produzindo um recorte específico do real, no qual apenas certos fenômenos podem aparecer. A evidência, nesse sentido é o efeito de um dispositivo. A psicologia baseada em evidências se vincula ao que Foucault chamou de biopoder: a submissão da vida ao que se proclama científico.
A psicologia baseada em evidências sustenta-se, portanto, dentro de um aquário epistemológico específico: a crença de que o sofrimento psíquico pode ser adequadamente compreendido a partir de categorias, protocolos médios e respostas estatisticamente significativas. Essa crença raramente é discutida; ela funciona como pano de fundo inquestionável — exatamente o que Foucault identificaria como uma verdade histórica naturalizada ou um regime de verdade.
A crítica racionalista à psicanálise costuma afirmar que ela carece de evidências empíricas robustas. No entanto, essa crítica incorre em um erro de categoria: exige da psicanálise aquilo que só faz sentido exigir de práticas que operam no mesmo regime epistemológico; no mesmo aquário. A psicanálise se propõe a trabalhar com a singularidade da experiência, com a linguagem, com o desejo e com o inconsciente — domínios que resistem à quantificação.
Como lembra Foucault, não há um único modelo legítimo de racionalidade. Reduzir o conhecimento ao positivismo é empobrecer o campo do saber humano. A psicanálise não compete com a psicologia experimental; ela opera em outro plano, no qual o sentido emerge da narrativa, da transferência e da escuta. Sua verdade não é a da correspondência entre teoria e fato, mas a da transformação da relação do sujeito consigo mesmo.
Exigir evidências positivistas da psicanálise equivale a pedir que a literatura comprove empiricamente seus efeitos estéticos ou que a filosofia valide suas proposições por meio de experimentos controlados. Trata-se menos de um problema científico do que de uma intolerância epistemológica diante do que escapa à norma da generalização.
A psicologia baseada em evidências se engancha em um regime de verdade no qual apenas aquilo que se ajusta a modelos prévios é reconhecido como legítimo. Tudo o que excede o protocolo — o imprevisto, o sintoma singular, a palavra deslocada — tende a ser tratado como desvio ou falha metodológica.
A psicanálise, ao contrário, aproxima-se da arte e da literatura justamente porque trabalha com o que não se deixa antecipar. Ela não busca confirmar ideias gerais, mas sustentar um espaço no qual algo possa acontecer. Nesse sentido, sua verdade não é a da evidência, mas a do acontecimento clínico.
Um dos argumentos recorrentes em defesa da psicologia baseada em evidências é o de que apenas práticas “comprovadamente eficazes” deveriam ser legitimadas. No entanto, esse discurso ignora um dado fundamental: mesmo no campo da medicina, menos de 10% das intervenções contam com evidências consideradas de alta qualidade, segundo revisões recentes do Journal of Clinical Epidemiology (2022). Ainda assim, a medicina não é descartada como pseudociência.
Isso revela a seletividade do argumento: a exigência de evidência torna-se absoluta apenas quando aplicada a determinados campos — sobretudo aqueles que lidam com a subjetividade. A pergunta correta, portanto, não é se a psicanálise funciona em geral, mas para quem ela funciona e em que condições. Sua validação não ocorre no plano abstrato das médias estatísticas, mas na experiência concreta de sujeitos que encontram nela um espaço de elaboração de seu sofrimento.
Fazer uma crítica à ciência dura, ou ao delírio científico, não é de forma alguma se aproximar do negacionismo, do obscurantismo ou compactuar com os divulgadores de notícias falsas. Jacques Rancière observa que tanto o racionalismo científico quanto o negacionismo compartilham uma mesma estrutura: ambos pretendem reduzir o real a um conjunto limitado de explicações legítimas. Não há um negacionista que não seja obcecado por "fontes" , "evidências". É assim que ele é capaz de persuadir e demonstrar a sua "verdade".
Criticar o delírio científico não significa tomar uma posição relativista, mas democrática. É reconhecer que diferentes práticas produzem diferentes formas de verdade, e que nenhuma delas pode reivindicar soberania absoluta. A psicologia baseada em evidências, ao se apresentar como critério universal, tende a silenciar outras formas de saber — não por refutação, mas por desqualificação prévia.
Como dizem Deleuze e Guattari, a psicanálise deveria ser um "canto de vida". Hoje, alguns psicanalistas buscam essa direção, portanto, é necessário fazer um elogio da psicanálise. Longe de estar confinada aos consultórios tradicionais e ao divã, a psicanálise hoje opera em periferias urbanas, instituições públicas, contextos de vulnerabilidade extrema e dispositivos coletivos. Sua permanência não se deve à força de evidências estatísticas, mas à sua capacidade de se reinventar diante de novas formas de sofrimento e subjetivação.
Essa vitalidade sugere que a questão da evidência talvez seja mal colocada. A psicanálise não sobrevive apesar da ausência de evidências; ela sobrevive porque responde a algo que escapa aos critérios evidenciais: a vida.
A crítica à psicologia baseada em evidências não implica a rejeição da ciência ou da pesquisa empírica, mas a recusa de sua absolutização. A evidência, longe de ser um dado neutro, é uma construção social que opera como obviedade em nossa época. Questionar o seu absolutismo não é obscurantismo, mas exercício crítico.
A psicanálise, ao insistir na singularidade da experiência e na irredutibilidade da subjetividade às ideias gerais, ocupa um lugar decisivo. Ela nos lembra que nem tudo o que importa pode ser quantificável — e que justamente aí reside uma das tarefas fundamentais do pensamento clínico e filosófico.
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