Letras Críticas
Jan. 2026
Por Alvaro Luiz.
A ideia de que o desenvolvimento econômico constitui a solução universal para os problemas do mundo tornou-se uma das crenças mais sólidas da contemporaneidade. Ela atravessa discursos políticos, relatórios de organismos internacionais, programas de governo e até mesmo práticas cotidianas de subjetivação. Crescimento do PIB, índices de produtividade e estímulo ao empreendedorismo aparecem como respostas automáticas à pobreza, à violência, à desigualdade e ao sofrimento psíquico. No entanto, essa promessa carrega um preço oculto: a submissão da vida a categorias econômicas.
O desenvolvimento econômico, apresentado como horizonte indiscutível, funciona menos como solução e mais como dispositivo de captura. Ele reorganiza desejos, naturaliza violências e legitima formas extremas de exploração sob o pretexto do progresso. A ideia de desenvolvimento econômico como panaceia não apenas falha em resolver os problemas que promete sanar, como os produz e os intensifica, ao reduzir a vida — humana e não humana — a recurso, investimento ou capital.
O desenvolvimento econômico opera hoje como uma verdade autoevidente. Questioná-lo soa quase como heresia. Tudo se passa como se não houvesse alternativa: ou um país se desenvolve economicamente, ou está condenado ao atraso, à miséria e ao caos. Essa obviedade, porém, é histórica, não natural. Ela corresponde a um regime específico de pensamento que transforma crescimento quantitativo em valor moral.
Nesse regime, a pobreza deixa de ser entendida como resultado de estruturas históricas de exploração e passa a ser atribuída a falhas individuais: falta de iniciativa, ausência de mentalidade empreendedora, incapacidade de “se vender” no mercado. É nesse ponto que emerge a fórmula universal identificada por Deleuze e Guattari: “então era isso”. Então era isso a origem do sofrimento econômico e psíquico: não sou suficientemente capitalista.
O efeito subjetivo dessa lógica é devastador: surge a culpa individual.
Nem mesmo Deus escapa à lógica do desenvolvimento. O sucesso econômico é frequentemente interpretado como sinal de mérito moral ou mesmo de bênção divina. A ética protestante e o espírito do capitalismo consolidaram uma equivalência perversa entre prosperidade material e virtude espiritual.
Nesse imaginário, os vencedores do mercado seriam escolhidos, enquanto os pobres carregariam a marca do fracasso — econômico, moral e, por vezes, espiritual. O capitalismo aparece, assim, como uma espécie de teodiceia secular: se alguém sofre, é porque merece; se alguém prospera, é porque "fez por onde".
Essa teologia econômica apaga uma evidência histórica fundamental: o capitalismo não caiu do céu. Deus jamais disse “faça-se o capitalismo”.
O discurso do desenvolvimento econômico costuma ocultar sua própria gênese. O capitalismo nasce daquilo que Marx chamou de acumulação primitiva: desapropriação violenta dos meios de produção, expropriação das terras comunais, destruição de modos de vida autônomos e transformação forçada de camponeses em assalariados.
Os corpos foram arrancados da terra, da comunidade, do tempo próprio de produção e lançados ao mercado como força de trabalho. O desenvolvimento econômico não foi um processo pacífico de evolução; foi uma catástrofe social organizada.
Essa violência fundadora não pertence apenas ao passado. Ela se atualiza continuamente sob novas formas: privatizações, destruição ambiental, flexibilização do trabalho, endividamento, precarização e guerras “humanitárias” travadas em nome do investimento, da estabilidade e do crescimento.
A ideia de desenvolvimento econômico como solução universal legitima, ainda hoje, intervenções brutais entre países. Nações são invadidas, territórios são ocupados, populações são deslocadas ou exterminadas sob o argumento de que é preciso “levar desenvolvimento”, “garantir investimentos” ou “estabilizar mercados”.
O desenvolvimento funciona, assim, como linguagem moral da guerra. Ele transforma destruição em oportunidade, massacre em estratégia e morte em efeito colateral. Tudo aquilo que resiste à lógica do capital — culturas, modos de vida, economias não mercantis — é tratado como obstáculo a ser eliminado.
Talvez nenhuma cena seja mais reveladora do cinismo do discurso neoliberal do que aquela que se repete cotidianamente: alguém chega à favela e afirma que o problema ali é a falta de capitalismo. A solução? Empreender.
Ignora-se deliberadamente o fato de que essas populações já foram violentamente integradas ao capitalismo — como mão de obra barata, como corpos descartáveis, como territórios exploráveis. O empreendedorismo aparece, então, como segunda violência simbólica: depois da exploração, vem a culpabilização.
O explorado ouve, interioriza e conclui: “então era isso”. Em vez de ser levado a protestar, organizar greves, resistir coletivamente ou exigir uma vida digna — educação de qualidade, trabalho digno, tempo de vida — o sujeito é interpelado a empreender. A resposta ao desemprego estrutural, à precarização e ao desmonte dos direitos sociais não é apresentada como questão política, mas como desafio individual. Surge, então, a figura dos sacerdotes do empreendedorismo, mediadores morais do capital.
Personagens midiáticos grotescos como Luciano Huck operam essa pedagogia ideológica ao induzir as classes populares a acreditar que iniciar uma atividade econômica informal ou autônoma — muitas vezes por pura falta de alternativas para não morrer de fome — constitui um gesto livre, criativo e empreendedor. A violência estrutural do desemprego desaparece, substituída por uma narrativa edificante de superação individual.
O mais perverso desse discurso reside na comparação sistemática entre o trabalhador precarizado e os grandes magnatas do capitalismo. O batalhador informal é apresentado como uma versão embrionária do bilionário, como se ambos compartilhassem a mesma posição histórica e as mesmas condições materiais. Desse modo, apaga-se a exploração, dissolve-se a luta de classes e converte-se a desigualdade em simples diferença de performance. A miséria deixa de ser efeito de um sistema para tornar-se falha de mentalidade.
O ponto mais profundo — e talvez mais perverso — do desenvolvimento econômico como ideologia está na captura do desejo. Não se trata apenas de organizar a produção, mas de produzir subjetividades que desejem aquilo que as explora.
Desejar crescer, competir, investir, escalar, performar. Desejar transformar a própria vida em empresa. Desejar a própria exploração como se fosse liberdade. Nesse sentido, o desenvolvimento econômico não é apenas um projeto econômico, mas um projeto de imposição de um único modo de existência.
Tudo aquilo que não se adequa às categorias econômicas — o cuidado, o improdutivo na produção (corpo sem órgãos), a arte, a contemplação, o comum, a vida em sua gratuidade — é desvalorizado, invisibilizado ou tratado como desperdício.
A crítica ao desenvolvimento econômico como solução universal não implica negar a importância das condições materiais de existência. Implica, sim, recusar a submissão total da vida à economia. Quando o desenvolvimento se torna critério absoluto, ele autoriza a exploração do trabalho humano, legitima guerras, destrói culturas e transforma o sofrimento em falha individual.
A pergunta decisiva não é como desenvolver mais, mas a serviço de quê e de quem. Enquanto a vida for tratada como meio para o crescimento econômico — e não o contrário — o desenvolvimento continuará sendo parte do problema, não da solução.
Talvez seja preciso, hoje, fazer aquilo que o discurso dominante proíbe: interromper a obviedade, recusar o “então era isso” e afirmar que a vida não cabe nas categorias do capital.