Letras Maquínicas
Jan. 2026
Escrita criativa e multiplicidade: a dramaturgia molecular
Por Alvaro Luiz.
Todo escritor é um vendido
A esquizoanálise proposta por Deleuze e Guattari vai buscar seus mestres não primeiro na clínica, mas na literatura: Artaud, Beckett, Büchner, Nerval, Michaux, Rimbaud, Kerouac, Burroughs. Esses escritores não “representam” a esquizofrenia, concebida aqui não como entidade clínica, mas como processo. Eles funcionam como o processo esquizofrênico. Seus textos são deslizamentos de fluxos, explosões de linguagem, cortes, intensidades. Isso não quer dizer que esses autores eram loucos — embora alguns realmente tenham sido diagnosticados. Mas a escrita, quando grande, é um exercício maquínico de desejo. Não é estilo — é explosão. É o momento em que a linguagem deixa de significar para começar a criar. Deleuze e Guattari dizem: "Literatura é como a esquizofrenia: um processo, não um objetivo; produção, não expressão". Não admira que eles escrevam: “Todo escritor é um vendido — exceto aquele que põe uma bomba dentro de sua própria escrita.”
Por uma dramaturgia molecular
Costuma-se afirmar que o todo pode ser apreendido a partir de suas partes: diz-se, por exemplo, que se conhece o Brasil ao entrar em um bar do país. Deleuze diria que essa ideia é apenas secundária. A parte não ratifica o todo; ao contrário, ela o desmente. É na parte que emergem as linhas de fuga, o intolerável, aquilo que expõe a fragilidade de qualquer pretensão de totalidade. É nesse ponto que se encontra o material fundamental do que eu chamo de dramaturgia molecular.
O molecular, em Deleuze e Guattari, refere-se às dinâmicas micropolíticas: gestos mínimos, resistências discretas e transformações que acontecem nos planos mais locais ou subterrâneos das relações sociais. Essas forças moleculares tanto podem confrontar a ordem estabelecida quanto ser por ela absorvidas. Freud mostra que a consciência ocupa apenas um pequeno espaço da vida psíquica; ela é conduzida por processos inconscientes que escapam ao seu domínio. Toda vivência psíquica — mesmo aquelas que parecem destituídas de sentido, como os sonhos, os lapsos, ou as falas consideradas absurdas dos doentes mentais — cumpre uma função e possui um “sentido”, podendo ser compreendida. É a esses acontecimentos banais do cotidiano que devemos dedicar maior atenção.
Não são as palavras de ordem políticas, capazes apenas de gerar entusiasmos efêmeros, que edificam efetivamente o progresso social ou o seu oposto, mas esses pequenos detalhes quase invisíveis. A existência dos indivíduos que compõem as massas é tecida por uma infinidade de acontecimentos que se desenrolam nos bastidores.
A dramaturgia molecular busca compreender como se constitui o universo molar. Trata-se, assim, de uma investigação dramatúrgica das instâncias molares — a produção de subjetividade, os sujeitos — ou seja, de identificar quais elementos engendram sujeitos (personagens) e quais produzem determinados estados de coisas. Por isso, não se deve tomar como ponto de partida estados de coisas já dados, nem uma sociedade previamente definida; é preciso, antes, destacar os componentes que participam da construção e da consolidação de um estado de coisas. Quando se começa por um estado já estabelecido, não há verdadeiro movimento nem possibilidade de transformação significativa: as regras e o jogo já estão fixados, e qualquer subversão só pode ocorrer pelas linhas de fuga.
Deleuze diz que a menor unidade da linguagem não é a palavra nem a letra, mas o enunciado — que não se apresenta diretamente, mas opera como algo subjacente à linguagem. “Eu te amo”, por exemplo, funciona como um enunciado-promessa. Da mesma forma, “a árvore esverdeja” pertence ao domínio da expressão, enquanto “a árvore é verde” se inscreve no regime da representação.
O mundo molecular é, como afirma Guattari, “um real anterior à discursividade”. A dramaturgia molecular afirma a vida em sua totalidade, com todos os seus aspectos, inclusive os mais banais ou tediosos. O que se opõe às leis da mímesis é a lei de um mundo inferior, um mundo molecular, indeterminado e não individualizado, anterior tanto à representação quanto ao princípio da razão. Em linguagem deleuzeana, são os devires e as hecceidades que se colocam contra a mímesis. A dramaturgia molecular perfura o muro da representação em direção a um fundo sem fundo: o lugar onde o pensamento descobre uma potência equivalente à potência da matéria, onde o consciente se equipara ao inconsciente.
Flaubert, de modo exemplar, constrói um plano de consistência composto por perceptos, afetos e velocidades. Ele esvazia a narrativa tradicional e converte uma história de amor em blocos de perceptos e afetos desvinculados, alcançando uma espécie de visão absoluta ou vidência. Basta evocar a cena em que Charles encontra a jovem Emma na fazenda onde vai tratar do pai dela: ali, Flaubert faz equivaler a potência molecular do pensamento, reduzido a seixo, à força descritiva de um detalhe, como a gota de água — da neve derretida — que cai, sob o sol, no tecido do guarda-chuva de Emma..
O mundo molecular é um plano a-significante e indiferenciado que se estende sob os esquemas da representação. É o domínio das multiplicidades moleculares e das hecceidades, das formas impessoais de individuação: a singularidade de uma hora que sonha ou de uma paisagem que percebe. Em oposição ao mundo dualista e vertical do modelo e da cópia, apresenta-se um mundo horizontal das multiplicidades, no qual todo tema possui o mesmo valor e todas as hierarquias da representação se dissolvem na potência igualitária dos devires. “O que se revela é o mundo onde já não se fala, o universo vegetal silencioso, a loucura das flores”, como diz Deleuze em Proust et les signes.
A dramaturgia molecular apoia-se na lógica da sensação. A tarefa proposta por Deleuze é saturar cada átomo: suprimir os personagens, privilegiar as hecceidades e impregnar cada instante da narrativa com o movimento das moléculas. Sob o tempo cronológico das causas que afetam os corpos, manifesta-se outro tempo, ao qual Deleuze dá o nome grego de aion: o tempo do acontecimento puro..
Tudo o que acontece, acontece no meio. Na dramaturgia molecular, o meio assume maior importância do que o começo ou o desfecho. O meio importa como processo, como movimento contínuo. Michel Serres, ao refletir sobre o corpo, indica que ele precisa mover-se, situar-se no entre, no lugar intermediário, para aprender e conhecer. O desejo nasce no meio: ele é relacional, uma liga de fluxos. Se possui um objeto, este não é outro senão o próprio fluxo. O desejo não reside na “substância” de nenhum dos termos que conecta, mas no movimento que os atravessa. Assim, em última instância, a dramaturgia molecular tem como objeto as linhas criativas do desejo.
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