Letras Maquínicas
Jan. 2026
Loucura e charme
Por Alvaro Luiz.
Qual é a sua loucura secreta? A pergunta não aponta para o desvio patológico nem para a perda de uma pretensa razão, mas para aquilo que, em cada um, escapa à norma, à adequação e à forma pronta. A loucura, nesse sentido, não é um infortúnio da vida, mas a sua autenticidade mais profunda. Ela é aquilo que não se deixa domesticar, o ponto em que a existência se afirma. Por isso, a loucura é muito mais compatível com a vida do que a razão normativa, burocrática e calculista. A loucura é vital. A formalidade, ao contrário, é frequentemente uma forma de morte lenta, uma vida administrada que perde contato com sua própria intensidade.
Fernando Pessoa formulou essa intuição ao afirmar que, sem a loucura, o homem é a "besta sadia", um "cadáver adiado". A razão excessiva não nos salva; ela nos suspende. Ela nos mantém funcionando, mas não vivendo. A loucura, ao contrário, introduz uma falha, uma fissura por onde a vida pode passar. Ela rompe com a linearidade previsível do cotidiano e nos reconecta com aquilo que pulsa, que vibra, que insiste.
Nesse sentido, a loucura coincide muito mais com a vida do que a razão. Não a razão enquanto potência do pensamento, mas a razão reduzida a norma, controle e reconhecimento. Gilles Deleuze dizia que o charme de uma pessoa está em sua loucura. O charme não nasce da conformidade nem da correção, mas da singularidade. É a loucura que nos torna interessantes, que nos retira do anonimato, que nos impede de nos dissolvermos no pensamento de manada.
A loucura expressa aquilo que em nós não se repete, aquilo que não pode ser substituído. Quando nos precipitamos em um devir louco, abandonamos as trilhas já marcadas e nos abrimos ao imprevisível. Não há pensamento de manada nesse movimento, porque a loucura não imita, não reconhece modelos, não busca aprovação. Ela inventa. Ela arrisca. Ela cria.
O dramaturgo Zé Celso formulou essa ética da loucura de maneira luminosa ao dizer: “Faça da sua camisa de força uma vela”. A camisa de força simboliza tudo aquilo que nos tenta conter — normas, expectativas, diagnósticos, medos. Transformá-la em vela é um gesto de transmutação: investir na loucura criativamente. É quando deixamos de lutar contra aquilo que nos atravessa e passamos a utilizá-lo como força propulsora que algo realmente acontece.
Investir a loucura de forma criativa é transformar limite em potência, desvio em caminho, excesso em invenção. É nesse ponto que a loucura deixa de ser uma ameaça e se torna charme, estilo, afirmação de vida. Não como romantização do sofrimento, mas como processo que nos conecta com o cosmos.
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