Letras Maquínicas
Jan. 2026
Música e ética
Por Alvaro Luiz.
Como você ouve música? A pergunta não é banal, pois nela se joga uma certa maneira de estar no mundo. Para muitos, ouvir música possui uma finalidade prática, funcional, utilitária: acabar com o silêncio incômodo, preencher o fundo sonoro de um churrasco, suportar o congestionamento do trânsito, atravessar uma longa viagem de ônibus ou tornar mais suportáveis as tarefas domésticas. Nessas situações, a música funciona como um anestésico , um amortecedor do real. Ela não amplia nossa potência de existir; ao contrário, serve para tornar o mundo tolerável; nos faz aceitar suas misérias.
Nesse caso, a música não nos conecta ao mundo, mas nos separa dele. Ela se transforma em um invólucro protetor, uma bolha que nos envolve por alguns minutos ou horas, criando uma distância segura em relação ao que nos cerca. Escutamos música para não ouvir a cidade, para não olhar a rua, para não ouvir o outro, para não ouvir a nós mesmos. É assim que aprendemos a tolerar o intolerável: em vez de um corpo a corpo com o real, nos blindamos contra ele.
Não seria mais interessante, porém, observar a cidade durante uma viagem de carro ou de ônibus e nos tornarmos "videntes", em vez de fazermos da música um devir-cego? Quando o nosso espírito é continuamente petrificado pelos estímulos sensório-motores automáticos, nossa capacidade de ação diminui, pois diminui também nossa potência de existir. Os clichês físicos e psíquicos que flutuam por toda parte nos ensinam a suportar tudo, a aceitar tudo, a não reagir a nada. A indústria da música, nesse contexto, funciona como uma poderosa fábrica de clichês: ritmos, fórmulas, afetos prontos que mantêm o ouvinte em um estado de reconhecimento e passividade.
Há, contudo, uma outra maneira de ouvir música. Se, para você, ouvir música não tem uma finalidade exterior, se o próprio ato de ouvir é a finalidade em si, então a música deixa de ser fundo sonoro e se torna experimentação. Quando ouvir música é uma experimentação, nada está dado de antemão. Não há um esquema automático a ser reproduzido, nem uma resposta previsível a ser esperada. A experimentação rompe o esquema sensório-motor habitual e nos coloca em contato direto com imagens sonoras puras e com as sensações que delas emergem.
Nesse caso, a mesma música nunca se repete. A cada escuta, ela produz uma experiência diferente, pois nós mesmos já não somos os mesmos. A música deixa de ser algo que usamos e passa a ser algo que nos transforma. Ela nos ensina a ver e a ouvir o mundo novamente, porque, ao aprender a ouvir música, reaprendemos a ouvir o mundo. Ouvir o outro, ouvir a cidade, ouvir a natureza, ouvir o universo. A escuta se torna uma prática ética e sensível.
Existe, portanto, uma maneira de ouvir música que rebaixa, pois nos protege do mundo e nos afasta da vida, e uma maneira de ouvir música que eleva, porque nos reconecta ao real e intensifica a existência. Nesta segunda via, a música não anestesia, mas desperta. Ela afina nossa percepção, amplia nossa sensibilidade e nos devolve ao mundo com mais atenção e mais rigor.
Quando a música nos ensina a ver e a ouvir melhor, a injustiça deixa de ser tolerável. O que antes era suportado como normal passa a aparecer como insuportável. Tornamo-nos videntes: passamos a ver o mundo como ele é, sem os clichês que o tornam aceitável. E quando já não toleramos o intolerável, abre-se no horizonte um novo campo de possibilidades — a possibilidade de inventar novos modos de vida, novos gestos, novos mundos.
Só para quem a vida é um fardo a música é escutada sem experimentação. Para quem ainda aposta na potência da vida, ouvir música é sempre uma linha de fuga, um encontro e uma abertura.