Letras Críticas
Jan. 2026
O acontecimento Pelé
Por Alvaro Luiz.
A Copa do Mundo de 2026 está próxima. O Brasil tem um técnico estrangeiro. O principal técnico brasileiro na atualidade é Filipe Luís, que afirma "copiar" os grandes treinadores europeus. Neste cenário, é sempre bom lembrar de Pelé e do futebol brasileiro forjado no samba, nos becos e vielas, na capoeira, no candomblé.
Pelé não pode ser compreendido apenas como uma resposta histórica à derrota de 1950. Sua emergência ocorre em um momento em que o futebol brasileiro atravessava uma crise de representação de si mesmo. O chamado “Maracanaço” não produziu somente uma derrota esportiva; ele abalou uma determinada imagem que o país construía sobre sua própria capacidade de agir e se afirmar. A derrota diante do Uruguai no Maracanã colocou em questão a relação entre futebol, identidade nacional e formas de expressão corporal. É nesse campo de tensão que surge Pelé, como uma singularidade capaz de reorganizar as possibilidades do jogo brasileiro.
A noção deleuziana de acontecimento permite compreender essa emergência. O acontecimento não se limita ao conjunto de condições que o produzem nem pode ser reduzido às consequências que provoca posteriormente. Ele inaugura uma nova distribuição das forças, uma alteração no campo das possibilidades. Pelé pertence a esse tipo de experiência: sua presença no futebol modifica os próprios critérios pelos quais o jogo era percebido.
Nelson Rodrigues identificou na derrota de 1950 a consolidação de uma disposição psicológica que chamou de “complexo de vira-latas”. Mais do que uma simples falta de confiança, tratava-se de uma forma de relação com o próprio corpo coletivo, marcada pela tendência a reconhecer no outro o modelo daquilo que se deveria ser. No futebol, essa postura favorecia a valorização excessiva da disciplina, da organização racional do espaço e da reprodução de modelos estrangeiros. A técnica aparecia separada da invenção; a eficiência, da expressão.
Ao mesmo tempo, a derrota revelou a permanência de mecanismos sociais mais profundos, entre eles o racismo. A responsabilização de Barbosa pela derrota de 1950 evidencia como determinados corpos podem ser transformados em lugares de fixação da culpa coletiva. O goleiro tornou-se o ponto onde uma derrota complexa poderia ser concentrada e explicada individualmente. Seu erro foi convertido em destino, e essa operação só foi possível porque já existia uma estrutura social preparada para atribuir ao corpo negro uma posição de suspeita e responsabilização.
É nesse contexto que Pelé aparece. Sua importância não está em corrigir uma falha anterior, mas em introduzir uma nova forma de composição entre corpo, inteligência e movimento. Seu futebol desorganizava as separações tradicionais entre técnica e improvisação, razão e instinto, pensamento e ação. Pelé pensava através do corpo. Sua inteligência não antecedia o movimento como um cálculo exterior; ela se produzia no próprio ato de jogar. Cada decisão era inseparável da criação da situação em que surgia.
Nesse sentido, seu corpo pode ser aproximado da ideia deleuziana de um corpo sem órgãos: um corpo que escapa às organizações rígidas e às funções previamente determinadas, abrindo-se às variações de intensidade e às possibilidades de composição. O corpo de Pelé não era uma máquina executando movimentos previamente codificados; era um campo de invenção permanente, no qual velocidade, percepção, equilíbrio e imaginação formavam uma única dinâmica.
Com Pelé, elementos associados historicamente à cultura brasileira — como a ginga, o ritmo, a improvisação e a relação lúdica com o espaço — passam a constituir uma lógica própria do futebol. Samba, capoeira, roda e outras formas culturais funcionam como modos de organização do movimento. O drible, nesse contexto produz uma alteração do espaço e obriga o adversário a responder a uma realidade criada no instante da ação.
O futebol europeu tradicional, especialmente em suas formas mais racionalizadas, frequentemente privilegiava a ocupação organizada dos espaços, a previsibilidade das ações e a disciplina coletiva. O futebol que se afirma a partir da geração de Pelé introduz outra relação com o tempo e o espaço: a capacidade de criar soluções dentro da própria dinâmica do jogo. O jogador produz novas possibilidades espaciais por meio do movimento.
As conquistas brasileiras a partir de 1958, portanto, tiveram uma dimensão estética e cultural. O sucesso da seleção brasileira modificou a maneira como o futebol poderia ser compreendido internacionalmente. O jogo passou a ser visto também como criação, invenção e expressão de uma inteligência corporal específica. A crise desse modelo aparece posteriormente quando o futebol brasileiro passa a privilegiar cada vez mais a contenção, o controle e a administração do resultado. O chamado “parreirismo”, associado à seleção de 1994, representa uma mudança significativa de sensibilidade: a vitória permanece como objetivo, mas a relação entre vitória e criação se transforma.
Pelé continua sendo uma presença ativa porque sua importância não depende apenas da memória histórica. Ele permanece como uma possibilidade de pensamento sobre o corpo e sobre a criação. Como observa Leonardo Sacramento, a principal imagem do Brasil no imaginário mundial está associada a um corpo negro em plena potência, capaz de condensar uma experiência histórica complexa sem se reduzir a uma representação fixa de identidade.
A força de Pelé está justamente no fato de ele ampliar o significado de inteligência, excelência e criação. Seu futebol mostra que o pensamento também pode ocorrer através dos gestos, dos ritmos e das relações sensíveis que um corpo estabelece com o mundo. Ele permanece como uma referência porque expressa uma dimensão do jogo em que a técnica não elimina a invenção, mas se torna o próprio meio pelo qual a invenção acontece.
A expectativa por uma vitória brasileira em uma Copa do Mundo envolve também o desejo de reencontrar essa capacidade de criação. Mas a permanência de Pelé talvez esteja menos ligada ao resultado de uma partida específica do que à possibilidade de que o futebol brasileiro continue produzindo formas novas de jogar, pensar e existir em campo.