Letras Maquínicas
Jan. 2026
O cinema como escola de esquizofrenia
Por Alvaro Luiz.
Os livros de Gilles Deleuze sobre o cinema nos apresentam um arsenal conceitual muito inspirador para a apreensão da Sétima Arte. Contudo, é a incorporação dos conceitos elaborados em parceria com Félix Guattari — assim como daqueles desenvolvidos no interior da própria obra filosófica deleuziana — que nos permite avançar para um nível mais profundo de apreensão da experiência cinematográfica.
O dispositivo cinematográfico não é, essencialmente, uma máquina de representação. Ele é uma máquina desejante. Como toda máquina desejante, o cinema não funciona pela lógica da falta, da carência ou da identificação, mas pela produção positiva de fluxos: fluxos de imagens, de sons, de afetos, de delírios e de alucinações. O cinema produz realidade. Ele fabrica mundos, corpos, percepções e subjetividades. O cinema também não é uma linguagem. Ele é algo mais profundo: uma psicomecânica. Um autômato espiritual. Esse autômato tem duas faces: a mais alta expressão do pensamento, o autômato esquizo; .e o autômato paranoico, hipnotizado, privado de seu pensamento, obedecendo a uma ideia fixa.
Assim como Deleuze e Guattari recusam, em O Anti-Édipo, a redução da esquizofrenia a uma entidade clínica, também aqui não se trata de transpor categorias psiquiátricas ao cinema. Falamos de processos, de funções, de modos de funcionamento da imagem. Nesse sentido, da máquina cinematográfica emanam duas grandes funções: a função-paranoica e a função-esquizofrênica da imagem.
A função-paranoica corresponde ao modo clássico, hegemônico e industrial de fazer cinema. Trata-se de um cinema que se esforça para alinhar a percepção da câmera à percepção humana, como se o olhar cinematográfico fosse uma extensão natural do olho, da consciência e do ponto de vista pretensamente centralizado do sujeito. A câmera enquadra um mundo em movimento, reafirmando a ideia de um observador soberano, capaz de abarcar a totalidade do real e agir sobre ele.
Nesse regime, a imagem nunca vale por si mesma. Ela remete sempre a outra imagem, e depois a outra, numa cadeia significante que constrói progressivamente um todo orgânico. O que importa não é o que há para ver na imagem, mas o que ela prepara, anuncia ou explica. Cada plano existe em função do próximo. Cada gesto, cada objeto, cada detalhe deve cumprir uma função narrativa, psicológica ou simbólica. Nada pode sobrar. Tudo precisa ter um significado.
A narrativa paranoica organiza o mundo como uma grande conspiração: tudo está conectado, tudo tem um significado oculto, tudo converge para a resolução final. A forma desse cinema não é a linha, mas a espiral: sempre retornamos ao mesmo centro, à mesma verdade, à mesma identidade. O espectador é treinado a antecipar, a reconhecer, a desconfiar, a decifrar. Aprende-se a ver como quem investiga um crime ou desvenda um mistério.
O cinema paranoico é, assim, uma escola de paranoia. Ele nos ensina a agir e perceber segundo um regime paranoico de signos, no qual o mundo é organizado como um sistema fechado, coerente, hierárquico e funcional. É o cinema como pedagogia da obediência perceptiva, da identificação com personagens, da submissão ao sentido dominante. Um cinema profundamente compatível com as formas modernas de poder, controle e normalização. Esse tipo de cinema vai de Hitler a Hollywood, de Hollywood a Hitler.
A função-esquizofrênica da imagem cinematográfica opera em sentido distinto. Desde os primeiros deslocamentos de câmera, das experiências de montagem, da emancipação do ponto de vista em relação ao sujeito humano, o cinema revelou sua vocação para descentrar a percepção, romper com o realismo raso e ultrapassar o regime ordinário do visível.
Aqui, a potência do cinema não está na representação, mas na vidência e na sensação. O plano deixa de ser um fragmento espacial subordinado à narrativa e passa a ser uma categoria temporal. O corte não é mais uma articulação lógica, mas um corte móvel da duração. O cinema não encadeia ações: ele faz ver o tempo, o afeto, a intensidade.
Nesse regime, a imagem não converge para um todo orgânico. Ela se abre em pedaços de imanência, em zonas de intensidade, em fluxos descontínuos. O cinema esquizofrênico não compõe, desterritorializa. Não codifica, descodifica. Não organiza o mundo, faz o mundo fugir.
Os efeitos produzidos por esse cinema são análogos aos da esquizofrenia enquanto processo: quebra das cadeias significantes dominantes, dissolução das identidades fixas, proliferação de conexões inesperadas. O espectador já não reconhece, ele experimenta. Já não interpreta, ele é afetado. Já não segue uma história, ele atravessa um campo de forças.
Enquanto escola de processos esquizofrênicos, o cinema ensina a produzir efeitos de desterritorialização sem o risco da captura clínica do esquizo enquanto entidade patológica. Trata-se de aprender a desfazer o eu, o ponto de vista central, a percepção funcional, sem sucumbir à anulação subjetiva. O cinema oferece uma esquizofrenia sem hospital, sem eletrochoque, sem normalização: uma esquizofrenia estética, política e perceptiva.
Nesse sentido, os cineastas tornam-se esquizopedagogos da percepção. Eles não ensinam a interpretar o mundo, mas a vê-lo de outro modo. Não oferecem respostas, mas deslocamentos. Não produzem identificação, mas agenciamentos de desejo. O cinema, enquanto máquina desejante e autômato espiritual esquizo torna-se um laboratório de experimentação sensível.
Esse processo esquizo rompe com o regime do visível ordinário e faz emergir algo de profundamente intolerável no cotidiano mais banal. Em vez de construir a grande conspiração, ele dá a ver o intolerável no cotidiano. Aquilo que o realismo paranoico nos ensinou a aceitar — a exploração do trabalho, a miséria, a violência, a mediocridade— torna-se subitamente insuportável. Mas, ao mesmo tempo, o cinema esquizo nos dá a ver possibilidades de vida. Ele desmascara o realismo dominante como ilusão a serviço do poder e reabre o campo do possível.
O cinema oscila permanentemente entre essas duas funções. Ele pode ser máquina de captura ou máquina de fuga. Pode reforçar o delírio paranoico do todo orgânico ou liberar fluxos esquizos de vida. Não se trata de uma oposição moral, mas de uma luta micropolítica no interior da própria imagem.
Enquanto o cinema paranoico nos ensina a ver para reconhecer e obedecer, o cinema esquizo nos ensina a ver para não suportar mais. E é precisamente aí que reside sua força política mais profunda: não em representar a revolução, mas em produzir perceptos e afetos capazes de tornar o mundo intolerável — e, por isso mesmo, transformável.
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