Letras Críticas
Fev. 2026
"O F.M.I não está nem aí"
Por Alvaro Luiz.
As reações ao texto de Vladimir Safatle publicado na revista Piauí, intitulado “O grande FMI universitário” — em que o filósofo propõe uma crítica direta a certos usos do discurso decolonial, especialmente ao distanciamento crescente entre teoria crítica e lutas políticas concretas — não demoraram a aparecer. Contudo, não houve, até este momento, nenhuma refutação ao texto de Safatle.
Longe de negar a importância da crítica ao colonialismo, o texto do filósofo interroga os procedimentos decoloniais; seus efeitos materiais; suas formas de institucionalização e seu risco de conversão em novo cânone normativo. O artigo de Safatle não pretendia (óbvio) ser um balanço historiográfico dos estudos decoloniais nem uma tentativa de organizar, de modo exaustivo, as múltiplas correntes que hoje se abrigam sob esse rótulo. Trata‑se de uma crítica, no sentido forte do termo: um gesto que visa interrogar o discurso acadêmico decolonial, que circula com prestígio global ao mesmo tempo que se afasta das lutas concretas.
É precisamente esse gesto que parte das respostas ao texto parece não sustentar. Ao recorrer a uma estratégia tipicamente acadêmica — acusar simplificação, exigir maior complexidade, reiterar a heterogeneidade interna do campo, reconstruir genealogias e contextos institucionais — desloca‑se o debate do plano em que Safatle o colocou. O problema não era argumentar que o pensamento decolonial não é plural (ele é), nem se suas origens são diversas (elas são), mas perguntar o que acontece quando esse discurso passa a operar como palavra de ordem no interior da universidade, das políticas culturais e dos espaços de legitimação simbólica, ao mesmo tempo em que acaba por se acomodar de modo inteiramente funcional à ordem vigente.
Há algo de sintomático nas respostas ao texto de Safatle. A invocação da complexidade funciona menos como esclarecimento do que como neutralização do conflito. Ela restaura a autoridade do especialista, o famoso discurso do “frio doutor das distâncias”, para usar um termo de Deleuze, e reinscreve a discussão no espaço protegido do debate abstrato. Como se fosse possível falar sem estar implicado. O discurso fica parecendo, como na música do Raul Seixas, “gente afirmando não querendo afirmar nada”; um discurso que se refugia em um autodeclarado "rigor" para evitar o risco da posição.
Safatle não critica as universidades dos Estados Unidos enquanto tais, nem ignora suas tradições críticas ou o papel que desempenharam como espaços de acolhimento intelectual. O alvo de sua crítica é outro: professores que, por escolha própria, se instalam no centro do capitalismo global e, a partir daí, produzem um discurso decolonial. Os estudos decoloniais como discurso de professores, emitidos do alto de seus cargos em grandes Universidades. Um exemplo clássico de idealismo. Como diz o filósofo Henri Bergson, “é o cérebro que faz parte do mundo material, e não o mundo material que faz parte do cérebro”.
Safatle interroga os efeitos políticos de uma crítica que se pretende radical e, ao mesmo tempo, se ajusta perfeitamente ao status quo. É nesse ponto que a metáfora do “grande FMI universitário” ganha sua força. Assim como o Fundo Monetário Internacional aplica receitas padronizadas a realidades distintas, uma certa decolonialidade hegemônica tende a funcionar como programa crítico exportável, com seus conceitos‑chave, seus protocolos de reconhecimento e seus critérios implícitos de legitimidade. O problema não está na crítica ao eurocentrismo, mas na sua transformação em novo puritanismo epistêmico: avesso às misturas, vigilante em relação às contaminações e desconfiado das alianças conceituais e políticas.
Contra esse puritanismo, é preciso recolocar no centro a questão da mistura. Não há política sem agenciamento, e não há agenciamento sem heterogeneidade. Fazer crítica é forçar encontros improváveis. É colocar a barba de Marx na mãe de santo, bem como vestir Marx com as vestes da mãe de santo: fazer com que a crítica da economia política atravesse saberes do terreiro e vice-versa, que o materialismo histórico se contamine com cosmologias, rituais e práticas corporais.
Esse gesto, escandaloso para os puristas, está longe de ser abstrato. Ao contrário, ele intensifica os conflitos em vez de dissolvê‑los. A história das lutas emancipatórias nunca foi feita de campos teóricos puros. Toda política viva nasce de misturas perigosas, não de ortodoxias identitárias.
O puritanismo decolonial, por sua vez, tende a produzir uma palavra de ordem: regula vocabulários, patrulha apropriações, hierarquiza lugares de fala e substitui o conflito material por disputas de legitimidade discursiva. Nesse regime, a crítica se torna inofensiva. O decolonial enquanto discurso de professores é o termo exterior que se instala nas relações para reorganizar os sentidos. Um grande imperador que invade os territórios para impor seus termos. Os estudos decoloniais como o Édipo acadêmico.
Parte das respostas ao texto de Safatle transformaram uma provocação política em uma suposta falta de rigor, deslocando a discussão para o terreno confortável do iluminismo acadêmico. A questão decisiva permanece, assim, praticamente intacta: qual é a relação efetiva entre discurso crítico e luta política hoje? O que significa falar em descolonização quando as estruturas materiais do colonialismo — financeiras, tecnológicas, militares, logísticas — seguem operando em escala global? O que significa produzir teoria radical sem enfrentar o problema dos monopólios, da financeirização da vida?
Talvez o principal mérito do texto de Safatle esteja justamente em recusar a posição confortável do comentarista equilibrado. Ele não escreve sobre o debate; ele entra no debate, se implica, assume o risco. Ao responder com distanciamento e apelos ao rigor acadêmico, perde‑se a oportunidade de enfrentar o problema no mesmo plano. O problema parece residir entre implicação e suposta neutralidade, entre mistura e purismo, entre luta e idealismo. Mas, parece que “O F.M.I não está nem aí” , como nos diz um clássico da banda Ratos de Porão.