Letras Críticas
Jan. 2026
O idealismo e a política
Por Alvaro Luiz.
O filósofo Henri Bergson argumenta que o problema do realista consiste em tentar deduzir a consciência a partir do universo material, como se ela fosse um simples epifenômeno, um subproduto da matéria organizada. Já o problema do idealista é o movimento inverso: deduzir o universo material da consciência, como se o mundo fosse uma projeção do pensamento ou uma construção da mente. Em ambos os casos, o erro é simétrico. Tanto o realismo quanto o idealismo mantêm uma relação de exterioridade rígida entre consciência e mundo, apenas invertendo o polo privilegiado. Um reduz a consciência à matéria; o outro dissolve a matéria na consciência.
Bergson propõe uma ruptura com essa alternativa falsa ao afirmar que o interior e o exterior não são nada além de relações entre imagens. Ele afirma que “é o cérebro que faz parte do mundo material, e não o mundo material que faz parte do cérebro”. O cérebro não é um receptáculo que contém o mundo sob a forma de imagens ou ideias; ele é, antes, uma peça entre outras no próprio mundo, atravessado por forças, movimentos e durações. Não se trata de imagens mentais, representações subjetivas encerradas na consciência, mas de imagens como modos de existência do próprio real. O que chamamos de interioridade não é um espaço fechado da consciência, assim como o exterior não é um domínio absolutamente independente dela; ambos emergem da posição, da distância e da relação entre imagens em movimento. Interior e exterior não designam substâncias distintas, mas variações de um mesmo campo imanente, no qual a consciência não cria o mundo nem é criada por ele, mas participa de um circuito contínuo de ações e afecções. Nesse plano, o problema já não é deduzir um termo a partir do outro, e sim compreender as relações dinâmicas que fazem com que mundo e consciência coexistam, se atravessem e se transformem mutuamente.
Essa inversão aparentemente simples desloca radicalmente o modo como pensamos a relação entre pensamento e realidade. Ela nos permite concluir que o ideal nunca está verdadeiramente conectado com o mundo, porque é exterior ao seu termo. No idealismo, persiste a crença de que as ideias são capazes de transformar o mundo por si mesmas, como se bastasse a retidão conceitual ou a pureza moral de um princípio para que a realidade se ajustasse a ele.
Uma ideia, ou uma opinião, ou uma narrativa, ou ainda um clichê — em uma palavra, a doxa — mantém sempre uma relação mediada com o real. Eu vejo o real a partir de uma ideia preconcebida sobre ele; não o encontro, eu o reconheço. A relação que se estabelece aqui é uma relação de representação: as ideias não coincidem com o real, elas o substituem. Elas representam o real, isto é, colocam-se em seu lugar, interpondo-se entre o mundo e a experiência. O real passa a ser filtrado, enquadrado, domesticado por esquemas prévios de interpretação.
Bergson, no entanto, propõe outra via ao afirmar que o corpo humano é um centro de ação, destinado a receber e restituir movimento. Essa definição desloca o corpo do campo da representação para o campo da ação. Nos termos de Baruch Spinoza, somos capazes de afetar e de sermos afetados. Não somos consciências pairando sobre um mundo inerte, mas corpos inseridos em uma trama dinâmica de forças. Somos capazes de exercer uma ação real e nova sobre os objetos que nos circundam, e essa ação não se reduz à interpretação ou reconhecimento habitual. Essa relação de transmissão e restituição de movimento não faz nascer uma representação: ela produz realidade.
O ideal como princípio abstrato
Os princípios abstratos, quando se autonomizam, enquadram a realidade e a recriam a partir de ideias apriorísticas, pré-concebidas. São combinações prévias que antecedem a experiência e a violentam, obrigando-a a caber em moldes já prontos. Isso não significa que os conceitos não tenham valor. Ao contrário, os conceitos são indispensáveis. O que não tem valor são os conceitos que pairam sobre a realidade e a julgam a partir de fora, como se ocupassem um ponto de vista transcendente. Muitas pesquisas acadêmicas ainda são reféns desse tipo de método idealista, que confunde rigor com abstração e pensamento com distanciamento. O idealismo é precisamente essa divisão entre pensamento e mundo, essa cisão que transforma o pensamento em juiz e o mundo em réu.
Um conceito materialista, ao contrário, é aquele extraído do movimento real do objeto e que, posteriormente, se torna teoria. Ele não antecede o objeto, mas emerge dele. Esse conceito é capaz de explicá-lo porque não o representa; ele expressa o seu movimento real, sua dinâmica interna, sua temporalidade própria. Como afirma Gilles Deleuze, os conceitos devem ser inventados a partir de uma relação de vidência com o objeto. Não basta reconhecer formas já dadas: é preciso ver. Ver o mundo para além de suas relações sensório-motoras habituais e captar o movimento e o tempo que o atravessam.
Um conceito extraído de um objeto X pode ser aplicado a um objeto Y? Pode, desde que ele seja capaz de extrair também desse objeto Y o seu movimento real. Nesse caso, o conceito precisa se adequar ao movimento do objeto, e não o contrário, como ainda ocorre com frequência na metodologia acadêmica tradicional. A própria relação clássica entre sujeito do conhecimento e objeto do saber torna-se questionável. Não existe uma relação em que um sujeito ativo age sobre um objeto passivo. O objeto também se move, também age, também responde. A relação é sempre de transmissão e restituição de movimento. Eu afeto o objeto, mas o objeto também me afeta, e nem um nem outro saem dessa relação do mesmo modo como entraram.
A esquerda idealista
Boa parte da esquerda no Brasil ainda opera sob um regime idealista. Fala em fraternidade, igualdade, justiça, como se esses ideais, por si sós, fossem capazes de produzir transformações reais. Um ideal não transforma o mundo nem inventa novos mundos, justamente porque tende a pairar sobre a realidade. Ele é incapaz de se conectar efetivamente ao real. Os ideais não coincidem com a vida, e é isso que explica o constante desencontro entre o discurso e a experiência concreta. O ideal ignora os investimentos libidinais, as máquinas desejantes, os afetos que atravessam os corpos e os coletivos.
É por isso que se torna necessário inventar conceitos que coincidam com o movimento real do mundo. Como dizem Deleuze e Guattari, não basta gritar “viva o múltiplo”; é preciso fazer o múltiplo. O poder de afetar e de ser afetado é o que cria o real. Meu corpo está sempre agindo sobre os objetos que me cercam, e essa ação não é abstrata. Dimensão, forma, cor, sons, odores variam conforme a distância que mantenho em relação aos objetos presentes no mundo. Quanto mais próximo do mundo, mais nós o afetamos e somos afetados por ele e, com isso, mais realidade criamos.
O problema é que fomos apartados do mundo. Em vez de agirmos diretamente sobre o real, nossa ação passou a ser mediada por clichês, narrativas prontas, imagens flutuantes e pela “besteira”, no sentido deleuziano do termo — essa proliferação de discursos vazios que impedem o pensamento de tocar o real. O idealismo da direita possui ainda um agravante adicional: ele incorpora a religião, a obsessão pelo apocalipse e pela morte. Esse é um tema que mereceria um desenvolvimento próprio. Por ora, deixemos essa questão em suspenso e retornemos ao problema do idealismo na esquerda.
Uma esquerda não idealista é aquela que opera no campo dos afetos. É uma esquerda que leva a sério o plano imanente do desejo, que não moraliza a vida nem a submete a ideais transcendentais. É uma esquerda que capta o movimento real do mundo e cria conceitos capazes de responder às exigências do acontecimento. Trata-se de uma esquerda “vidente”: uma esquerda que vê o intolerável, a vergonha, a violência, e que não se limita a uma tomada de consciência — típica do idealismo —, mas opera uma mutação subjetiva.
Afinal, nada muda se antes não mudarmos a nós mesmos. Não é suficiente mudar de ideia; é preciso mudar a maneira de perceber o mundo. A política, nesse sentido, é também uma política da percepção. Mudar a maneira de ver o mundo é deixar de vê-lo através de ideias pré-concebidas, isto é, abandonar o olhar da doxa para assumir o olhar do vidente. O vidente não se interpõe entre o mundo e a experiência; ele se conecta diretamente ao real, produzindo o real a partir de blocos de movimento e duração extraídos do próprio mundo.
O olho empírico, organizado e domesticado, vê apenas os efeitos já estabilizados. O olho do vidente, ao contrário, vê as causas — e essas causas não são outra coisa senão o próprio movimento real do mundo em seu devir incessante. É nesse ponto que pensamento, política e vida deixam de se separar e passam a compor um mesmo plano de imanência.