Letras Críticas
Jan. 2026
O realismo capitalista da música Trap
Por Alvaro Luiz.
Na década de 1990, a banda de hardcore Agnostic Front causou polêmica ao afirmar que o Rap era uma merda. A afirmação soava absurda à época, mas eles a justificavam: o Rap seria uma merda porque “depreciava as mulheres”. Naquele momento, a crítica parecia deslocada. O Rap que eu conhecia era o Public Enemy, os Racionais MCs, o RZO etc. — uma tradição marcada pela denúncia do racismo estrutural, da violência policial, da desigualdade social e da exclusão sistemática das periferias. Não fazia sentido afirmar que o Rap depreciava as mulheres.
Mas o tempo tratou de revelar o alvo real daquela crítica. O Agnostic Front não se referia ao Rap enquanto movimento histórico, político e estético, mas a uma variação específica que, nos Estados Unidos, já começava a se impor como sinônimo do próprio Rap. Tratava-se do Trap. O que na época era ainda um fenômeno localizado tornou-se, décadas depois, uma hegemonia estética e discursiva. No Brasil, o percurso é assustadoramente semelhante: o Trap já começa a ser visto como sinônimo de Rap.
A mensagem central da música Trap é clara: a única revolta possível é consumir freneticamente. O consumo deixa de ser apenas um efeito colateral do sistema e passa a assumir uma tonalidade supostamente emancipatória. O prazer imediato, os bens de luxo, o dinheiro exibido como signo máximo de sucesso tornam-se a linguagem da “vitória”. Não se trata mais de transformar o mundo, mas de vencer individualmente dentro dele. É nesse ponto que o conceito de realismo capitalista, formulado por Mark Fisher, se torna decisivo.
Fisher denomina realismo capitalista o estágio do capitalismo em que não parece haver alternativa a este modo de organização social. O capitalismo não se apresenta mais como um sistema histórico entre outros, mas como a única forma possível de organização da vida moderna. Tudo o que existe deve existir dentro dele. Até a imaginação política é colonizada. Assim, até a revolta, para ser reconhecida, precisa obedecer às diretrizes do capital. No interior desse regime, o sujeito adquire um novo estatuto: não é mais o trabalhador, o cidadão ou o militante, mas o sujeito consumidor.
A doutrina neoliberal do desempenho e da autorrealização é central nesse processo. Ela promete emancipação, mas produz isolamento. É incapaz de criar um NÓS porque instaura a competição de todos contra todos. Cada um deve ser empreendedor de si mesmo, responsável exclusivo por seu sucesso ou fracasso. Nesse cenário, a favela nunca vence enquanto coletivo. Pode até produzir vencedores individuais, mas a vitória é sempre solitária. A doutrina do desempenho impede a coesão social e, sem coesão, não há comunidade. O “eu” esmaga o “nós”, e a ideia de ascensão substitui a ideia de transformação.
Há algo de sintomático em músicas que só se tornam “interessantes” se o ouvinte estiver sob o efeito de ácido ou outras substâncias. Ora, a música deveria ser o ácido. A música boa altera a percepção por si só, desloca o corpo, reorganiza o tempo, cria novas sensibilidades sem precisar de mediação química. Quando a experiência estética depende de um suplemento externo para se sustentar, talvez o problema não esteja no ouvinte, mas na pobreza sensível da própria obra.
Fisher observa que a crise identitária contemporânea — situada entre o antigo sujeito moldado por instituições disciplinares e o novo sujeito consumidor — produz o que ele chama de impotência reflexiva, especialmente entre os mais jovens. Trata-se de um estado paradoxal: sabe-se que algo está errado, que as coisas não vão bem, que o sistema é injusto e destrutivo. Mas, ao mesmo tempo, não se consegue imaginar outra coisa. Não se consegue agir. Não se consegue ir além da busca imediata por prazer, visibilidade e reconhecimento.
O Trap frequentemente reproduz a mesma ideologia burguesa, inconsequente e autocentrada dos playboys — apenas deslocada geograficamente para a periferia. Surge então a pergunta incômoda: a favela venceu ou apenas o individualismo venceu? Quando Marcelo D2 cita Emicida e a ideia de que “a rua somos nós”, toca-se em algo fundamental. Maurice Blanchot já dizia que há mais potência no “nós” do que no “eu”. O “nós” não é a soma de indivíduos bem-sucedidos, mas a criação de um campo comum, de uma experiência partilhada, de uma força coletiva que não se reduz à lógica neoliberal de consumo.
Transformar o Trap em sinônimo de Rap é, portanto, um gesto problemático. O Rap carrega uma história bonita, feita de precariedade criativa e invenção coletiva: encontrar vinis velhos jogados no lixo por produtoras, samplear, rimar sobre bases recicladas, transformar resto em potência. O rap nasce da escassez, mas cria abundância expressiva. Ele não celebra o consumo; ele denuncia sua desigualdade.
O Trap, por sua vez, é um produto direto do neoliberalismo tardio. Ele encarna a ideia de que não há alternativa ao capitalismo e que, portanto, a única revolta possível é uma revolta pelo consumo. Após gerações de jovens que criticavam o sistema, emerge uma geração frequentemente desarmada conceitualmente, capturada por um hedonismo vazio, incapaz de reflexão estruturada e de imaginação política. Não se trata de moralizar gostos musicais, mas de compreender que toda estética é também uma política da percepção. E, nesse sentido, o Trap não apenas expressa o realismo capitalista: ele o normaliza, o celebra e o transforma em trilha sonora da impotência contemporânea.