Letras Maquínicas
Jan. 2026
Por Alvaro Luiz.
Estas letras maquínicas propõem uma leitura do ensaio de John Berger sobre três fotografias de August Sander. A leitura irá se limitar aos apontamentos de Berger acerca de uma fotografia. Nela, Berger identifica nos ternos vestidos por jovens camponeses do início do século XX um “exemplo gráfico” da hegemonia de classe, nos termos formulados por Antonio Gramsci. Argumenta-se que a força do ensaio de Berger reside menos na descrição empírica da imagem do que na fabricação de um ato de fala visionário, capaz de romper com os clichês sensório-motores que naturalizam a dominação social. Ao suspender o reconhecimento habitual, Berger faz emergir, na fotografia de Sander, o intolerável histórico que nela permanecia oculto, instaurando um campo de possíveis políticos e perceptivos.
Quem não experimentou uma transformação radical no modo de ver um filme, uma fotografia ou uma obra literária após a leitura de um grande ensaio crítico? Há imagens que parecem exigir palavras para se tornarem visíveis. Não porque sejam obscuras, mas porque estão excessivamente evidentes, recobertas por hábitos perceptivos que nos impedem de vê-las de fato. Eisenstein não é o mesmo depois de Georges Didi-Huberman; Glauber Rocha se reconfigura quando atravessado pela leitura de Ismail Xavier. Certos textos não apenas comentam imagens: eles as deslocam, as fazem variar, acrescentam-lhes uma nova dimensão temporal e conceitual.
Se a fotografia pode ser compreendida como um pensamento congelado, o texto que a interroga é capaz de recolocar esse pensamento em movimento. Quando isso ocorre, crítica e obra não se opõem nem se hierarquizam: entram em composição. É nesse ponto que o crítico deixa de ser mero intérprete e se torna visionário ou vidente, conforme os termos propostos por Deleuze.
John Berger foi, nesse sentido, um crítico profundamente visionário. Como observa Geoff Dyer, seus escritos sobre fotografia foram desde o início “manifesta e inevitavelmente políticos”. Mas não se trata de uma política programática ou militante; trata-se de uma intuição política que emerge da visão.
Em seu célebre ensaio sobre a fotografia do cadáver de Che Guevara, Berger afirma que o revolucionário argentino considerava o mundo intolerável, e que essa intolerabilidade havia se tornado visível com as lutas de libertação nacional dos anos 1960. A imagem de Guevara morto não funciona, para Berger, como advertência exemplar — tal como desejavam seus algozes —, mas como abertura de um campo de possíveis.
Essa leitura pode ser articulada ao que Deleuze e Guattari denominam “fenômeno de vidência”: o momento em que uma sociedade vê subitamente aquilo que contém de intolerável e, ao mesmo tempo, entrevê a possibilidade de outra coisa. Guevara torna-se expressão não apenas de uma revolução, mas da possibilidade de uma vida que não aceita a intolerabilidade do mundo dado.
Berger vê em Guevara menos um estrategista político do que um visionário. E isso porque o próprio Berger opera como vidente: ele percebe, na imagem, aquilo que excede seu uso imediato e sua função ideológica.
A terna empiria de August Sander
É nesse horizonte que se insere o ensaio de Berger sobre a fotografia Jovens camponeses (1914), de August Sander, integrante do projeto O homem do século XX. Na imagem, três jovens camponeses caminham em direção a uma festa, vestidos com ternos, chapéus e bengalas. À primeira vista, trata-se de um registro empírico, quase etnográfico, de costumes e tipos sociais.
August Sander, Jovens fazendeiros, 1914. Reprodução
Sander pretendia construir um vasto inventário dos “tipos humanos” de sua época. Seu projeto foi interrompido pelo regime nazista, mas o que restou constitui, como observa Berger, um documento social e humano de enorme valor.
Contudo, essa empiria não está isenta de problemas. Como Benjamin reconhece, citando Brecht, a simples reprodução da realidade não diz quase nada sobre ela. A visão orgânica do mundo — aquela que se limita aos efeitos visíveis — tende a naturalizar as relações sociais.
É precisamente aqui que Berger intervém.
A visão empírica da fotografia produz reconhecimento, mas não conhecimento. Reconhecemos imediatamente os ternos, os chapéus, a juventude, a festa. Esse reconhecimento automático prolonga a percepção em associações previsíveis: progresso, urbanização do campo, universalização dos costumes burgueses. Permanecemos no plano dos efeitos.
Berger, contudo, opera uma ruptura. Ele suspende o reconhecimento habitual e instaura um reconhecimento atento, nos termos de Bergson e Deleuze. O objeto empírico — o terno — deixa de ser apenas um dado visível e passa a funcionar como sintoma histórico. O terno torna-se intolerável.
Ao vestir o terno burguês, os camponeses incorporam uma forma que não lhes pertence. Seus corpos aparecem, então, como corpos desajustados, quase deformados, capturados por uma hegemonia de classe que se infiltra nos gestos, nas roupas, nas posturas. Berger vê, nos ternos, não um sinal de ascensão, mas de submissão. O que se apresenta como elegância e progresso revela-se violência simbólica.
Nesse gesto, o texto de Berger deixa de ser comentário e se torna ato de fala. Ele introduz na imagem uma linguagem menor, que resiste à linguagem orgânica dominante e dá a ver interações sociais que a fotografia, sozinha, não tornava visíveis. A imagem muda passa a falar.
Como no cinema vidente descrito por Deleuze, Berger eleva a faculdade de ver a um limiar de intensidade que a liberta do simples reconhecimento. Ele percebe o imperceptível, diz o indizível, pensa o impensável. Onde o olhar empírico vê naturalidade, Berger vê dominação.
Enquanto Sander oferece a observação imediata; Berger fabrica a visão. A fotografia fornece o campo empírico; o ensaio cria a vidência. Ao desnaturalizar o terno, Berger revela o intolerável histórico inscrito na imagem e restitui à fotografia sua potência crítica.
Ver o intolerável é romper com o mundo como clichê. É suspender o esquema sensório-motor que nos faz aceitar as misérias do presente. Nesse sentido, o ensaio de Berger não apenas interpreta uma fotografia: ele inaugura um campo de possíveis. Ele nos ensina a ver — e, ao ver, a não mais tolerar.
Livro de John Berger: BERGER, John. Para entender a fotografia. São Paulo: Cia. das Letras, 2017.