Letras Críticas
Jan. 2026
Os crimes do capitalismo
Por Alvaro Luiz.
Nas sociedades capitalistas, o capitalismo tende a aparecer como algo exterior ao próprio campo social. Ele é naturalizado, tomado como um dado inevitável da realidade, quase como uma lei da natureza. Por isso, os problemas políticos e sociais são discutidos como se pudessem ser compreendidos isoladamente, sem que o capitalismo seja colocado em questão como causa estruturante das mazelas que atravessam a vida social. O resultado é um deslocamento constante do debate: a causa é excluída do campo de análise, e a sociedade passa a se debater apenas com os efeitos.
Um exemplo claro desse mecanismo pode ser observado na forma como a grande mídia aborda a criminalidade. O tom predominante é o da indignação moral, vazia e punitivista, em que a discussão se reduz à culpabilização de indivíduos. Crimes são apresentados como falhas morais isoladas, desvios de caráter ou escolhas pessoais, enquanto as condições que os produzem permanecem fora do enquadramento. No entanto, os efeitos são sempre imanentes às causas. Não há fenômeno social que possa ser compreendido fora do sistema que o engendra.
Nesse sentido, os crimes cometidos no interior das sociedades capitalistas não são estranhos ao capitalismo. Ao contrário, a criminalidade é inseparável da própria mentalidade capitalista. Homicídios, roubos, furtos e as múltiplas formas de violência que atravessam o cotidiano social mantêm um nexo profundo com a lógica do capital. O feminicídio e o chamado homicídio passional, por exemplo, expressam de maneira extrema a vontade de possuir o outro como propriedade privada. O crime aparece, aqui, como a radicalização de uma lógica de apropriação que o capitalismo normaliza nas relações sociais.
O homicídio fútil, por sua vez, repete a lógica da rivalidade entre indivíduos, própria de um sistema que estimula a competição permanente. Já o roubo e o furto podem ser compreendidos como o desdobramento da lógica do capital no campo da contravenção. Trata-se, em ambos os casos, de maximizar ganhos e minimizar custos — exatamente o ideário liberal que orienta o funcionamento da economia capitalista. O crime não nega essa lógica; ele a leva às últimas consequências.
O tráfico de drogas é talvez o exemplo mais nítido dessa racionalidade capitalista deslocada para o campo criminal: investir pouco, lucrar muito, assumir riscos calculados e explorar mercados altamente lucrativos. Trata-se de uma economia paralela que reproduz, em sua forma mais brutal, os mesmos princípios que regem o capitalismo legal. Lucrar a todo custo, independentemente das consequências humanas, torna-se o imperativo absoluto.
A isso se soma o desejo ilusório de conquistas materiais que atravessa as classes populares. Em um sistema que promete consumo e ascensão, mas bloqueia estruturalmente o acesso a esses bens por meio do trabalho, a criminalidade aparece, para alguns, como um atalho possível. Quando o trabalho formal já não oferece perspectivas reais de sobrevivência digna, o crime surge como uma alternativa perversa, mas coerente com os valores propagados pelo próprio sistema. Contudo, não precisa de muito esforço analítico para concluir que os verdadeiros criminosos são as elites econômicas, que inclusive corrompem a classe política.
É evidente que o capitalismo não inventou o crime. A violência e a transgressão existem em diferentes formações sociais. No entanto, no interior das sociedades capitalistas, o crime assume a forma do capitalismo. Isso ocorre porque o capitalismo, enquanto força histórica e social, atravessa as relações hegemônicas, moldando desejos, comportamentos e formas de racionalidade. A criminalidade não é um corpo estranho à nossa forma de organização social; ela é uma de suas expressões.
Por isso, a criminalidade em sociedades capitalistas deve ser compreendida como um problema do próprio capitalismo. Enfrentá-la exige deslocar o debate de uma lógica moralista e punitiva para uma análise das causas. E isso implica criticar a conivência do capitalismo para com a criminalidade. Buscar culpados individuais ou exigir mais repressão não ataca o problema em sua raiz. Enquanto o sistema que produz essas formas de violência não for objeto de crítica, seus efeitos continuarão a se repetir, ainda que sob novas roupagens.