Letras Maquínicas

Jan. 2026

Para além dos jardins de infância de Édipo: Valerie e seus atravessamentos esquizos

Por Alvaro Luiz.

Valerie e sua semana de deslumbramentos, também conhecido como Valerie e a Semana das Maravilhas (Valerie Her Week of Wonders, 1970), filme da Checoslováquia dirigido por Jaromil Jireš, ocupa um lugar singular no cinema europeu ao articular erotismo, fantasia, horror gótico e crítica radical às instituições que capturam o corpo feminino. Mais do que um filme de iniciação, trata-se de uma máquina de guerra contra o Édipo, contra a família tradicional burguesa, contra a Igreja, contra o patriarcado e contra qualquer forma de poder que pretenda organizar o desejo a partir de uma lógica de filiação, culpa e castração.

As letras maquínicas que seguem propõem ler Valerie como uma narrativa anti-edipiana e esquizoanalítica, em que o corpo da jovem é disputado por múltiplos aparelhos de captura — família, religião, moral, Estado — ao mesmo tempo em que escapa por meio de relações exoedipianas, devires e encontros com o Fora.

A disputa pelo corpo da mulher: máquinas de captura

Desde as primeiras sequências, o filme explicita seu tema central: o corpo de Valerie como território de disputa. Igreja, patriarcado, família, pretendente, parentes, missionários e autoridades não aparecem como personagens isolados, mas como variações de uma mesma função vampírica: roubar a juventude, o sangue, o desejo.

O pai, o padre, o bispo, o missionário e o oficial militar se confundem numa única figura monstruosa. O filme literaliza aquilo que O Anti-Édipo formula conceitualmente:

“Os termos de Édipo não formam um triângulo, porque existem explodidos em todos os cantos do campo social.”

Aqui, o pai não está apenas na família: ele está na Igreja, no Estado, na moral, no sermão às moças, na vigilância do corpo feminino. O vampiro é modelo normalizado do poder.

A morte do desejo

A figura da avó é central. Ela não é apenas uma personagem, mas um corpo fascista que expressa a morte do desejo como produção. Seu rosto cadavérico, sua obediência à Igreja, sua defesa da renúncia e da submissão fazem dela um corpo já morto, um corpo cadavérico que exige que a juventude se sacrifique para manter viva a ordem moral.

A avó ocupa simultaneamente o lugar de mãe, carcereira e cúmplice do vampiro. É ela quem exige que Valerie se desfaça dos brincos — expressão das alianças, dos agenciamentos e dos encontros — repetindo o gesto de castração que marcou sua própria história.