Letras Maquínicas
Jan. 2026
Por uma erótica da arte
Por Alvaro Luiz.
A obra de arte não tem, ou não deve ter, significado. Assumido esse ponto de vista, não há nada a interpretar. Como sustenta Susan Sontag, impõe-se a necessidade de substituir a interpretação da obra de arte por uma erótica da obra de arte. A potência de contato com a obra. Se não há nada a interpretar, é porque o artista faz funcionar a obra. Ele a faz funcionar por meio do agenciamento de blocos de movimento e duração — isto é, blocos de sensações, compostos de perceptos e afetos, tal como formulados por Gilles Deleuze na Lógica da Sensação. Pintar, por exemplo, não consiste em representar um objeto, mas sim colocar um quadro em funcionamento. Esse funcionamento designa uma força vital, uma circulação de vida — um circuito vital, um eterno retorno — que rompe com o circuito de morte característico do niilismo passivo. A obra de arte é resistência precisamente porque resiste à morte: à amargura, ao trágico, à angústia. É nesse sentido que ela se conecta à luta dos homens, não como expressão de uma época, mas como campo de forças.
A obra de arte diz menos sobre o seu tempo histórico do que sobre a luta entre vida e morte, sobre forças em combate, sobre intensidades em variação. A obra de arte não diz respeito à subjetividade pseudotrágica do autor, nem a um sujeito da atividade plástica, tampouco a um sujeito espectador da pintura. Ela independe do modelo, do espectador e do criador. Na lógica da sensação, não há lugar para as experiências de um sujeito cartesiano, fundado na interioridade, na consciência ou na vivência. A arte não pode ser compreendida como consequência do vivido. As sensações — perceptos e afetos — são seres que valem por si mesmos, que subsistem na obra e excedem toda experiência empírica ou psicológica.
Há, assim, uma recusa do sujeito pseudotrágico e pseudotestemunha de seu tempo, em favor de um acréscimo de realidade: produção de realidade, produção de uma presença. Trata-se de uma presença que subverte a relação entre modelo e cópia e que só pode ser alcançada mediante a superação do clichê — isto é, daquilo que já se encontra dado na imagem antes mesmo de a obra ser realizada. A tarefa da arte é arrancar do real triste e opressivo um “mais de realidade”.
O que a obra afirma é o seu devir-presença e o seu conservar-se. A obra de arte é uma fonte inesgotável de energia vital. O que se conserva, o que resiste ao tempo e à morte, é o percepto e o afeto, enquanto unidades não subjetivas da sensação. Fazer uma erótica da arte implica, portanto, evitar uma história da arte positivista ou historicista. A erótica da arte não se limita nem ao desenvolvimento técnico, nem aos reflexos sociopolíticos, tampouco às biografias dos artistas, que frequentemente não fazem senão reproduzir a história dos “grandes homens”. Não se trata de uma História Monumental, voltada à exaltação de feitos e figuras do passado. O campo temático principal de uma erótica da arte é o olhar artístico e o pensamento-artista. O foco desloca-se, assim, para a expressão da visualidade e do pensamento enquanto forças. A erótica da arte configura-se, desse modo, como uma história da arte vidente: uma história da percepção humana.
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