Letras Maquínicas
Jan. 2026
Que tal o impossível?
Por Alvaro Luiz.
Itamar Assumpção nos faz um convite: "Que tal o impossível?". Clarice Lispector afirma que “o que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós”. A frase desloca imediatamente a identidade do campo do dado para o da criação. Não somos aquilo que realizamos dentro das condições estabelecidas, mas aquilo que emerge quando essas condições entram em colapso. O impossível, aqui, não remete a um ideal inalcançável, mas a uma suspensão momentânea das coordenadas que delimitam o campo do realizável. O impossível torna-se o vetor de produção de realidade.
Como diz a banda Einstürzende Neubauten: “O que é, é. O que não é, é possível. Apenas o que não é, é possível", o impossível não está ligado ao existente, mas ao que ainda não encontrou forma. O que existe se repete segundo combinações previsíveis. O possível verdadeiro, que na verdade é o impossível, não se encontra no interior do atual, mas fora dele.
Essa concepção encontra em Deleuze sua formulação filosófica mais radical. Para Deleuze, o erro clássico da metafísica consiste em pensar o possível como uma imagem antecipada do real, como algo que aguardaria apenas sua realização. Nesse modelo, o possível é subordinado ao atual: ele já está dado, apenas ainda não aconteceu. O que se chama de realização não passa, então, de uma seleção entre alternativas previamente constituídas.
Contra essa lógica, Deleuze propõe a distinção entre possível e virtual. O possível é aquilo que já está inteiramente formado, esperando para ser atualizado. O virtual, ao contrário, não é uma possibilidade abstrata, mas um campo de potências reais, ainda indeterminadas, que se atualizam criando algo novo. O virtual não se parece com aquilo que dele emerge; ele se diferencia ao se atualizar.
É nesse ponto que o impossível adquire um novo estatuto. O impossível não é o que não pode acontecer, mas o que não pode acontecer segundo as regras vigentes. Ele marca o limite interno de um regime de realidade. Quando o mundo passa a responder apenas a esquemas sensório-motores, a clichês perceptivos e afetivos, tudo aquilo que não se encaixa nesses esquemas aparece como impossível. Não porque seja irreal, mas porque desorganiza as formas estabelecidas de reconhecimento.
Como observa Zourabichvili, o intolerável é precisamente a emergência do impossível: o momento em que a realidade já não responde aos encadeamentos sensório-motores que a tornavam previsível. O intolerável não é um excesso moral, mas um excesso de realidade. Ele força o pensamento a abandonar seus automatismos, abrindo espaço para um novo regime do possível.
Criar realidade, nesse contexto, não é realizar um projeto previamente concebido, mas traçar linhas de desejo que escapam às segmentações molares e às condições apriorísticas que definem o que é possível e impossível. Criar o impossível é implodir essas categorias, mostrando que elas não são naturais, mas construídas. O impossível não está fora da realidade; ele é o motor de sua transformação.
Por isso, a criação de realidade implica sempre um processo de dessubjetivação. Não se trata de expressar uma identidade profunda, mas de fazer algo diferente com aquilo que fizeram de nós. Tornar-se outro não é mudar de papel dentro do mesmo mundo, mas participar da criação de um outro mundo possível — ou melhor, virtual.
O convite “que tal o impossível?” deve ser entendido, então, como um chamado à criação de novos valores. Não novos valores no sentido moral, mas novos modos de existência, novas formas de sentir, pensar e viver. Criar realidade é acessar o impossível, e acessar o impossível é recusar a repetição dos modos de vida hegemônicos. É nesse gesto que o pensamento, a arte e a vida se encontram: não na representação do que é, mas na invenção do que ainda não existe.